15 de mai. de 2013

A mentira corre solta no Facebook (e a cada segundo faz uma vítima "indignada")



Por José Carlos Fineis


O Facebook às vezes parece um lago cheio de peixinhos famintos, raivosos... E bobos.

Basta que alguém jogue uma isca imaginária (como a história de um suposto projeto aprovado pelo Senado, que concede bolsa mensal de R$ 2 mil a garotas de programa) para que muitos a mordam e saiam protestando.

Levei um susto ao ver que amigos supostamente bem informados haviam publicado comentários furiosos sobre uma notícia intitulada “Senado aprova pagamento de bolsa mensal de R$ 2.000,00 para garotas de programa”.

Por dever jornalístico, mesmo sem acreditar que fosse verdade, rastreei a notícia (ou algo semelhante que pudesse ter gerado um mal-entendido) nas ditas fontes oficiais, como os sites do Senado e da senadora Ana Rita (PT), citada como autora do projeto.

Não encontrei referência, assim como não existe menção nos portais noticiosos (que teriam feito um alarido enorme com um projeto desse quilate) ou em sites de jornais e revistas, grandes ou pequenos.

Só encontrei a “informação” (por sinal, o mesmo texto, copiado e colado muitas vezes) em uns poucos blogues e no próprio Facebook, onde muitos já a haviam compartilhado com os comentários “indignados” de sempre ("este país não tem jeito", "os políticos estão tirando sarro da cara da gente", "por isso é que eu anulo meu voto", etc.)

O mentiroso brinca com suas vítimas

Muitos talvez não se tenham dado ao trabalho de ler a notícia. Se o fizessem, poderiam perceber que o texto foi construído com uma certa ironia. O autor, talvez pelo prazer intelectual de jogar com a inteligência do leitor, deixou pistas de que o fato não é verdadeiro.

A pista principal está logo na primeira linha: “Uma proposta polêmica, de autoria da senadora Maria Rita, do Partido dos Trabalhadores, foi aprovada na tarde de hoje por maioria de votos.”

A notícia foi postada no dia 10, sexta-feira. Ora, alguém já viu senador trabalhar na sexta-feira à tarde?

Mas há outras provocações, que poderiam gerar desconfiança, como o valor da “bolsa” (R$ 2 mil para cada garota de programa, quando o Bolsa Família -- que, como o nome já diz, é para toda a família -- é de no máximo R$ 306) e, a meu ver a principal delas, a frase atribuída à senadora petista, segundo quem o auxílio governamental permitiria às garotas de programa “disponibilizar para a clientela um serviço de melhor qualidade, já que as meninas poderão se cuidar melhor, pagar tratamentos estéticos, frequentar academias, etc..."

Ao que tudo indica, o criador da farsa é um suposto jornalista blogueiro, cuja principal característica é justamente noticiar situações absurdas ao estilo de notícia séria.

Ele noticiou, por exemplo, que José Dirceu foi preso pela Polícia Federal enquanto tentava fugir para Cuba e que um policial do interior do Acre derrubou um óvni com um tiro de calibre 12. Outro título do blogue informa que uma empresa de turismo está vendendo pacotes para romeiros interessados em visitar o túmulo do dedo de Lula.

Por aí se vê o nível do jornalismo praticado por esse cidadão.

A mentira, a meia-verdade e o engano

Existem blogues que mentem (por algum motivo político-ideológico, imagino) e outros que postam piadas em forma de notícia, por vezes, sem esclarecer em letras garrafais que as informações são fictícias (como o Sensacionalista e o Piauí Herald).

São sites de humor, excelentes por sinal. Mas, diante do grau de desinformação do cidadão médio, até mesmo as notícias mais absurdas publicadas por eles podem ser usadas de forma maliciosa por pessoas com segundas intenções. Há sempre alguém disposto a acreditar nelas e a difundi-las nas redes sociais, causando equívocos e desinformação.

Também há histórias verdadeiras, cujos detalhes básicos são alterados, para levar a população a se escandalizar com fatos inexatos ou inexistentes. É o caso da história espalhada no Facebook, de que o governo de São Paulo pagará R$ 1.350 por mês a viciados em crack. Na verdade, o Programa Recomeço nada mais é do que um convênio com clínicas e comunidades terapêuticas, para viabilizar o tratamento de dependentes químicos. Os viciados não recebem um centavo -- apenas a chance de se curar do vício, o que é ótimo para eles e para toda a sociedade.

Neste caso, o que era uma boa notícia foi transformado em algo escandaloso. E os peixinhos do Facebook abocanharam a isca: "Onde já se viu dar dinheiro para os nóias se drogarem?"  

Não acho que o problema deva ser resumido numa equação “imprensa séria x blogueiros mentirosos”. Existem blogueiros muito competentes e sérios, assim como existem jornalistas negligentes que ocupam (até porque receberam, em condições duvidosas, um diploma que faz deles "profissionais") espaço de gente séria em grandes redações.

A credibilidade tem mais a ver com a ética do jornalista, sua competência e compromisso com o público, do que com o meio em que ele desenvolve seu trabalho (embora seja forçoso reconhecer que, geralmente, é mais difícil mentir numa redação onde existam mecanismos mínimos de controle da qualidade e veracidade das informações publicadas).

O fundamental para o leitor é desconfiar do que lê. Nunca confiar cegamente em notícias que surgem apenas em blogues, e que não citam dados que possam ser checados (como, no caso, o número do projeto aprovado, o site oficial onde a informação foi originalmente publicada, etc.). É indispensável, também, fazer uma pesquisa básica para constatar se veículos tradicionais (sites de jornais, revistas e emissoras de TV) também deram a informação.

Não quero dizer com isso que um fato precise ser noticiado por um grande portal para ser verdadeiro, mas, em geral, fatos verdadeiros são noticiados por uma variedade de veículos grandes e pequenos, com textos diferentes e profusão de informações que nos permitem concluir se estamos ou não sendo enganados.

O lago do Facebook está repleto de iscas falsas. Antes de cravar os dentes numa, faça um favor a si mesmo: procure se informar melhor.





23 de jul. de 2012

O jornal e a democracia (quando os princípios são honestos e transparentes, as queixas se esvaziam por si mesmas)



Por José Carlos Fineis



Cobrir uma eleição é sempre tarefa de grande responsabilidade para a imprensa, não apenas pelo desafio de manter o público bem informado sobre os fatos de campanha e os bastidores da corrida eleitoral, mas também pela necessidade de incorporar, em cada ação informativa - seja ela uma notinha, uma série de entrevistas ou um debate -, um propósito muito consciente de oferecer aos candidatos as mesmas oportunidades, bem como de vigiar para que o noticiário não venha, ainda que de maneira involuntária, a favorecer uma candidatura em detrimento das outras.

Somente com honestidade e coragem um órgão de imprensa é capaz de contribuir com a democracia. Honestidade, porque ser equânime é algo bem mais complexo do que apenas dividir o espaço em partes iguais para que os candidatos exponham suas plataformas. É aplicar as mesmas diretrizes, os mesmos princípios na identificação do fato jornalístico, seja ele referente a A, B ou C, e estabelecer a importância da notícia de acordo com a única referência possível, que é o interesse público, o direito do cidadão a receber informações que lhe permitam escolher corretamente.

É aí que entra a coragem, pois informar, muitas vezes, significa contrariar interesses. É normal, em campanhas eleitorais, candidatos se afirmarem perseguidos por determinado órgão de imprensa, que nada mais fez do que tornar pública uma informação relevante. Quando os princípios são honestos e transparentes, as queixas se esvaziam por si mesmas. O veículo de comunicação que se permite manipular por pressões partidárias comete o pior dos erros, que consiste em desonrar o mandato social recebido, em forma de confiança e preferência, de seus leitores, ouvintes e telespectadores.


(Trecho do editorial "O Cruzeiro e a democracia", publicado pelo jornal Cruzeiro do Sul de 22/7/2012. Acredito fortemente nisso, e mais um pouco: o jornalista que não acredita no poder transformador do jornalismo; o juiz ou promotor que perdem a confiança na Justiça; o policial que não vê mais diferença entre bandidos e mocinhos; o professor que acha que tanto faz dar aula como não dar - deveriam todos pedir o chapéu e ir para casa, buscar alguma coisa mais estimulante para fazer, deixando seus postos e salários aos que ainda tenham fé em si mesmos e tesão pela profissão.)



     

7 de abr. de 2012

Já vi esse título em algum lugar!




Por José Carlos Fineis


É difícil pedir para alguém: seja criativo. Parece tão inócuo quanto dizer a um guitarrista: sole como o David Guilmour. Ou a um jogador de futebol: dê passes como o Ademir da Guia. Quero dizer que, em grande medida, ser original é um talento, que não se pode impor às pessoas, pois nem toda a boa vontade do mundo fará com que elas sejam o que não são. Entretanto, naquilo que a originalidade depende apenas de suor e esforço, devemos persegui-la, e uma regra possível na correria diária poderia ser resumida da seguinte maneira: se você não consegue fazer algo fabuloso (um título de artigo, por exemplo), pelo menos procure não ser igual a todo mundo.

A citação do título de artigo como exemplo não é aleatória. Na verdade, é o motivo de ter escolhido este assunto. Na semana passada, redigi um artigo de jornal sobre o escândalo que envolveu o senador Demóstenes Torres e o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Com poucas exceções, quando a luzinha do título acende antes, costumo fazer o título depois do texto, pois geralmente algum trecho ou expressão do próprio texto acaba sugerindo naturalmente a linha do título. Neste caso, depois de escrever sobre os muitos contatos do bicheiro na política, o título que me veio à cabeça, quase que automaticamente, foi “Todos os homens de Cachoeira”, numa menção ao filme de Alan J. Pakula sobre o Watergate, All The President's Men.

Meu pecado foi não ter rejeitado essa primeira e sedutora ideia, que no momento não me pareceu tão óbvia. Trocadilhos com títulos de filmes, romances e peças de teatro são um recurso frequente dos articulistas e, geralmente, resultam boas soluções. Neste caso, porém, havia indícios de que a originalidade poderia ficar comprometida. “Todos os homens..." tornou-se uma citação clássica na imprensa brasileira. Nos anos 1990, um livro de Gustavo Krieger, Luiz Antonio Novaes e Tales Faria, sobre a ascensão e queda do ex-presidente Collor de Mello, recebeu o título de “Todos os Sócios do Presidente”. Pensando bem, a referência era previsível.

Tanto era, que não fui o único a recorrer a ele. Desconfiado de que poderia não ter sido muito original, busquei o título entre aspas no Google (depois da publicação) e surgiram 2.830 resultados. A maior parte desses milhares de links (acho que uns 99,9%) refere-se ao artigo de Catia Seabra e Fernando Mello, publicado pela Folha de S. Paulo na mesma data do meu (2/4) e reproduzido em blogues, sinopses e clippings por todo o Brasil. Meu texto foi republicado em alguns lugares e ajudou modestamente a inflar o número de resultados. Um consolo: no Google Notícias, só apareceu meu artigo. Sinal de que não era tão evidente assim.

Sei que a conclusão é um tanto óbvia, mas para evitar que o leitor tenha a sensação de estar lendo um jornal do ano passado, é preciso rejeitar sempre as primeiras sugestões que o cérebro apresenta. Alguns títulos são tão repetitivos que é incrível que ainda não tenham sido descartados. “Tragédia anunciada” é um deles (com a variação que também se tornou clássica, “Crônica de uma tragédia anunciada”). Outros que aparecem com frequência: “A pátria de chuteiras”. “Negócio da China”, “A bola da vez”, “Hora da verdade”, “Fogo cruzado”. Hoje está se alastrando na imprensa uma tendência de chamar a presidente Dilma Rousseff de dama de ferro, numa alusão à forma como a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher ficou conhecida. Esse, juro que não vou usar...

Nem sempre temos tempo e neurônios suficientes para criar títulos geniais, depois de um dia de trabalho pesado, de muitas pesquisas e de tentar sintetizar problemas econômicos, políticos ou sociais complexos em 3.700 toques. Mas devemos amarrar um barbante no dedo para lembrar de desconfiar sempre das ideias que surgem "naturalmente", como soluções prontas e acabadas. Rejeitar a primeira opção, pensar mais um pouco, rever o texto para encontrar possíveis expressões que possam ser “puxadas” para o título, são exercícios necessários, sempre. E, quando o título genial não vem, lembrar que a simplicidade é sempre uma opção honrada. Na falta de um título ultracriativo e bem bolado, é melhor ser despojado e evitar a tentação do lugar-comum.