22 de jun. de 2014

O falso Felipão e a festa de bicadas

Capa de Um estranho no ninho (One flew over the
 cuckoo's nest), de Ken Kesey, publicado no
ano em que eu nasci (1962). Este, por sinal, foi um dos
livros que mais me influenciaram na adolescência e
por toda a vida, mas essa já é outra história.

Por José Carlos Fineis

Sobre o episódio da entrevista com o falso Felipão, vejo que muitos jornalisas se comprazem em estraçalhar publicamente um colega, porque cometeu um erro. Agora eu pergunto: quem de nós -- digo, dos que estão metidos no fogo cruzado das redações, e não encastelados em cátedras ou coisas semelhantes -- nunca errou? 

Aponte-me um jornalista que não erra, e eu lhe mostrarei um grande mentiroso. No mínimo, ele acoberta seus erros. Ou nunca atuou na área.

Digo sempre que o bom jornalista não é aquele que não comete erros, mas sim aquele que sabe reconhecê-los com humildade e corrigi-los, com a máxima transparência. E foi isso o que o colunista em questão fez. O que mais querem que ele faça: que cometa suicídio ou vá embora do País?

A forma como está sendo criticado por pessoas que também erram me fez lembrar um trecho do romance Um estranho no ninho, de Ken Kesey, em que Randall Patrick McMurphy, o valentão que se faz passar por louco para não ir para a cadeia e acaba num hospício, diz aos colegas de terapia que eles parecem galinhas numa festa de bicadas.

Alguém pergunta o que vem a ser isso, e ele explica:

"(...) O bando avista uma mancha de sangue numa galinha qualquer e todos eles começam a bicá-la, sabe, até que estraçalham a galinha em pedaços, sangue e ossos e penas. Mas normalmente um par das aves do bando ganha também sua ferida na confusão, então é a vez delas. E mais algumas ficam machucadas e são bicadas até a morte, e mais outras e outras. Ah, uma festa de bicadas pode acabar com o bando inteiro em uma questão de horas, companheiro, eu já vi.(...)"

Então, colegas, boa festa de bicadas pra vocês. E preparem o traseiro, porque, da próxima vez que vocês errarem, já sabem o que vai acontecer.






16 de set. de 2013

Inversão cronológica gera versão distorcida sobre médicos cubanos


Por José Carlos Fineis


Um jornalista (e aqui incluo todos os que escrevem profissionalmente para jornal) deveria ter o cuidado de checar pelo menos a ordem cronológica dos fatos antes de tecer relações entre eles, mas parece que nem a chamada grande imprensa tem feito isso. 
Acabo de ler dois artigos sobre a importação de médicos cubanos na Folha de S. Paulo, segundo os quais a ideia de trazer médicos de Cuba foi uma "resposta apressada" e eleitoreira aos protestos de junho.
Mas como isso poderia ser possível, se o anúncio de que o governo pretendia trazer 6 mil médicos cubanos ocorreu no dia 6 de maio, portanto, mais de 40 dias antes das grandes manifestações populares?
A prova da anterioridade do programa está no link lá de baixo, da Veja. A notícia foi dada por toda a imprensa, na época. Na verdade, ao fazer o anúncio, o governo já vinha cuidando do assunto há mais tempo.
O programa federal (e isto não é uma defesa do PT, apenas uma correção dos fatos com base naquilo que a própria imprensa noticiou) é anterior às manifestações, que ganharam corpo no dia 17/6.
Infelizmente, o leitor não pode aceitar como verdade tudo aquilo que é publicado. Bagunçar a cronologia dos fatos para criar falsas relações de causa e efeito é, também, um jeito de mentir.

Trechos dos artigos citados:

"(...) Agora, vejamos o lado do governo acuado pelas manifestações de rua que clamavam por transporte público, educação e saúde.
Talvez por falta do que propor nas duas primeiras áreas, decidiu atacar a da saúde. A população se queixa da falta de assistência médica? Vamos contratar médicos estrangeiros, foi o melhor que conseguiram arquitetar. (...)" (Drauzio Varela, Demagogia eleitoreira, Folha de S. Paulo, 7/9/2013)
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella/2013/09/1337995-demagogia-eleitoreira.shtml

"(...) Que a medida do governo Dilma é eleitoreira, tomada às pressas como resposta às manifestações das ruas, ninguém duvida disso. Tampouco há dúvidas sobre a insustentabilidade do programa a médio e longo prazo. (...)"  (Cláudia Collucci, "Erramos. A população ficou contra a gente", dizem médicos, Folha de S. Paulo, 11/9/2013)
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/claudiacollucci/2013/09/1340316-erramos-a-populacao-ficou-contra-a-gente-dizem-medicos.shtml

E aqui a notícia original, de 6 de maio -- portanto, mais de 40 dias antes das grandes manifestações em que a pauta da saúde (entre outras) foi incluída ao lado da questão do transporte coletivo.
http://veja.abril.com.br/blog/politica/governo-dilma-rousseff/governo-negocia-importacao-de-6-000-medicos-cubanos/





1 de jun. de 2013

Um programa de cinco pontos para os jornais impressos


Por José Carlos Fineis

Os jornais impressos passam pelo momento mais crítico da história, devido a duas mudanças dramáticas ocorridas nesse modelo de negócios. Essas mudanças já são sentidas em maior ou menor intensidade por todos os veículos, e não há nada que possa ser feito para estancar sua marcha ou revertê-las.

A principal delas, por si só suficiente para revolucionar o setor ainda neste primeiro quatro de século, é a opção cada vez maior dos leitores pelos meios de comunicação baseados em internet. Quanto mais jovem a pessoa, menor a familiaridade com o jornal impresso e maior a inclinação pelo uso de computadores e dispositivos móveis de comunicação para conseguir informações.

A outra mudança, na verdade um desdobramento da primeira, é a facilidade com que se obtêm informações on-line. A profusão de sites noticiosos, quase todos gratuitos, permite a uma pessoa manter-se bem informada sem a necessidade de assinar um jornal ou de pagar para receber informações.

Quanto tempo ainda os jornais impressos resistirão e quais jornais sobreviverão (supondo-se que alguns consigam permanecer, devido a uma conjunção muito especial de fatores) são perguntas impossíveis de responder sem uma bola de cristal. Mas parece óbvio que os que estiverem melhor estruturados financeiramente e utilizarem essa vantagem competitiva para melhorar seus produtos atuais e desenvolver novos produtos terão uma chance maior.

Tenho observado que a crise demora mais a atingir os jornais do interior, cujo conteúdo, diferentemente dos grandes jornais de abrangência nacional, não pode ser obtido com tanta facilidade em grande número de sítios noticiosos. Destes, pode-se dizer que estão em posição privilegiada, pois terão um fôlego maior para desenvolver modelos lucrativos de negócios digitais, inclusive aproveitando-se das experiências de outros veículos impressos, que estão há mais tempo buscando e experimentando novos e possíveis caminhos.

Seja qual for a solução, não tenho dúvida de que ela terá de ser dada pela atual geração de empresários, executivos e jornalistas, ou seja, aqueles que estão hoje nos postos de comando das empresas e das redações. Caberá a eles atuar em duas frentes distintas, ambas igualmente importantes: por um lado, encontrar maneiras de oxigenar o jornal impresso e assegurar sua permanência pelo maior tempo possível; por outro, desenvolver modelos de negócios no meio digital, suficientemente bons para assegurar a viabilidade financeira de serviços jornalísticos nesse universo altamente competitivo e volátil.

É uma realidade complexa, que exige criatividade, informação e uma boa dose de ousadia. Para enfrentá-la, sugiro um programa de cinco pontos, relativamente simples de implantar em qualquer empresa jornalística. São eles:

1) Se ainda não o fizeram, os jornais impressos devem começar o quanto antes a prospectar de forma séria e sistemática as muitas maneiras possíveis de obter receita (publicidade, assinaturas, venda de conteúdos diversos) pela internet. A venda de banners em sites é apenas a mais antiga e menos criativa forma de buscar faturamento. Novos produtos digitais ou mesmo formas novas de gerar receita com portais tradicionais, como o paywall*, têm sido testados no mundo todo e essas experiências, bem ou mal sucedidas, precisam ser conhecidas e avaliadas.

2) Criar uma Gerência de Novos Produtos ou um grupo intersetorial de trabalho que envolva Redação, Comercial, Marketing e TI, para pesquisar, estudar e adaptar as soluções já adotadas com sucesso por outros veículos. Esse setor deve ter autonomia para funcionar como laboratório de testes, e dispor de uma estrutura mínima para desenvolver projetos experimentais, como uma revista semanal para tablets ou a venda de pacotes noticiosos customizáveis para dispositivos móveis.

3) Investir em conteúdos exclusivos e aprimorar a qualidade. A tendência de cortar custos para fazer frente à queda de faturamento é uma estratégia suicida para as empresas jornalísticas, especialmente em cenários de forte competição. Mais do que nunca, é fundamental que os veículos, sejam eles impressos ou digitais, valorizem os profissionais experientes, talentosos, dotados de um bom conteúdo humanístico e livres de preconceitos, capazes de surpreender e cativar os leitores com boas reportagens e artigos. Ninguém pagará para receber aquilo que pode encontrar de graça na internet ou para ter informações superficiais e mal apuradas.

4) Transformar a cultura jornalística e empresarial do jornal impresso (que eu chamo de "cabeça de papel") numa cultura multimeios. É algo difícil de conseguir em empresas tradicionais, que ainda têm sua rotina e sua forma de trabalhar regidas pelo impresso. Mas é urgente fazer a transição, contratando e ou valorizando pessoas que já têm uma visão heterogênea da produção jornalística. Nessa nova cultura, notícias e produtos editoriais devem ser pensados e executados em todos os formatos possíveis, de forma integrada. Os diferentes meios devem ser usados para alavancar uns aos outros, e não para se aniquilar reciprocamente.

5) Buscar públicos qualificados. A possibilidade de faturar com jornalismo digital será proporcional à capacidade dos veículos de identificar os públicos preferenciais de seus produtos, permitindo que os mídias das agências de publicidade planejem suas estratégias com maior segurança. Apenas o número de acessos de um site ou o total de assinantes de um serviço noticioso são informações vagas demais para convencer o anunciante a investir seu dinheiro em determinado produto; é preciso saber quem são os leitores, qual sua faixa de renda, sua idade, sexo, escolaridade, profissão e o que costumam consumir, entre outras informações. Logo, a formação de públicos deve ser acompanhada pela criação de cadastros eficientes.

Esses são pontos básicos sobre os quais toda empresa jornalística deve se debruçar sem mais demora, sob o risco de perder seu produto atual -- o jornal impresso -- e, por outro lado, não conseguir estabelecer produtos jornalísticos rentáveis no meio digital. A crise do jornal impresso tem chegado de forma mais lenta no Brasil, o que leva muitos empresários a imaginar que esse seja um problema a ser resolvido pela próxima geração no comando. Mas o desafio já está presente, e não encará-lo agora pode ser desastroso. Será a atual geração de executivos e jornalistas que definirá se e como os veículos colocados sob sua responsabilidade existirão ou deixarão de existir, daqui a dez ou vinte anos.




* Paywall: sistema pelo qual o leitor pode acessar gratuitamente determinado número de notícias de um site a cada dia ou mês. Uma vez atingido o limite de acessos gratuitos, que é definido pelo veículo, o acesso só é possível mediante o pagamento de uma assinatura. O paywall pode ser usado também para permitir o acesso gratuito a algumas sessões, ou mesmo à abertura de alguns textos, exigindo-se entretanto que o interessado pague para ter todas as sessões e os textos integrais.