15 de jul de 2018

E nós, será que somos os cidadãos que o Brasil espera para o futuro?

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Muitos vídeos deixariam de ser gravados se, antes de ceder impulsivamente ao desejo de colocar a cara na telinha, cada um dos participantes fizesse esse simples exercício de autoanálise, no silêncio de seu quarto, a sós com sua consciência e seus botões

Por José Carlos Fineis

É sempre complicado criticar qualquer coisa relacionada à Rede Globo, pois isso se tornou lugar-comum – quase um vício para muitos brasileiros que, apesar disso, por motivos que a razão desconhece, continuam vendo a Globo e mantendo com a emissora uma relação de amor e ódio. Mas, se é complicado, eis aí um bom motivo para mergulhar de cabeça no tema, até porque o objetivo deste artigo não é propriamente criticar a Globo, e sim comentar o projeto “O Brasil que eu quero” em seu sentido mais amplo – incluindo-se aí, evidentemente, o sentido político que permeia quase todas as coisas.

Quando se fala em TV aberta, por vezes é difícil dissociar o serviço noticioso do marketing institucional e da "linha de shows" – e estes, por sua vez, das posições políticas, que podem ser ditadas por relações de amizade, simpatias ideológicas ou interesses comerciais e econômicos. Em alguns casos, esses elementos se fundem de tal forma que se torna impossível classificar as produções conforme sua utilidade ou objetivo.

No caso do projeto “O Brasil que eu quero”, a ideia tanto pode ter sido concebida pelo departamento de Jornalismo quanto pelo de Marketing. No entanto, qualquer que seja a origem, está claro que a iniciativa extrapola o terreno da comunicação, para assumir um contorno bem mais ambicioso. É indisfarçável o desejo de enfatizar o “poder” de uma organização que se imagina capaz de mobilizar multidões e pautar os rumos da vida nacional.

Seja qual for a intenção, entretanto, ela se mostra equivocada por alguns motivos óbvios e que poderiam ter sido previstos logo na primeira reunião de planejamento. O mais evidente, mas não o principal, é que projetos massivos como esse, com inserções em todos os telejornais e por um longo período de tempo, exaurem rapidamente o que poderia haver de novidade na fórmula e se tornam, em poucos dias, monótonos e cansativos.

A menos que o objetivo seja vencer pelo cansaço (estratégia que não funciona quando o receptor tem um controle-remoto na mão e aprendeu a aproveitar esses vazios de programação para ir ao banheiro), o fato é que as opiniões sobre o país, desde há muito marteladas sem grandes variações nas redes sociais, constituem um acervo bastante limitado e que, previsivelmente, levaria – como de fato levou – a um círculo asfixiante de opiniões recicladas.

Há muito tempo não se via, na TV brasileira, uma aposta tão alta – e isso dá o que pensar. No canal do projeto na internet, onde estão publicados todos os vídeos levados ao ar desde o primeiro dia, existiam até o dia 12 de julho nada menos que 275 páginas com 20 inserções cada, sendo que cada inserção apresenta em média entre cinco e sete vídeos de 15 segundos. Numa conta por alto, são bem mais de 30 mil vídeos, cuja soma ultrapassa as 120 horas de programação – e note-se que a emissora promete estender a cantilena, iniciada em março, até as vésperas das eleições, em setembro.

À já citada saturação gerada pela limitação do repertório, soma-se o fato de que, evidentemente, nem tudo o que os telespectadores submetem à emissora pode ser veiculado – e aqui ingressamos num campo mais preocupante, o da possível manipulação de conteúdo. Quando se convoca a população a dizer o que pensa, é previsível que surjam conteúdos inconvenientes e impublicáveis, como, por exemplo, críticas à própria Globo ou à excessiva liberalidade como as concessões de TV são utilizadas, ou ainda falas simpáticas a correntes político-ideológicas que não agradam à cúpula da emissora, ou contrárias aos interesses de seus proprietários ou patrocinadores.

Esse tipo de conteúdo não se vê nas inserções, levando a crer que ou existe de fato um filtro interno, ou os próprios espectadores se impuseram uma autocensura, deixando de enviar conteúdos que supõem não terem chance de ser veiculados. Para me certificar de que essa minha percepção, formulada como espectador eventual dos telejornais da Globo, não era injusta ou infundada, consultei aleatoriamente uma amostragem de 60 depoimentos no site da emissora. E confirmei que a quase totalidade dos vídeos contém clamores genéricos por “educação de qualidade”, “apoio aos produtores rurais”, “mais oportunidades de empregos aos jovens”, "menos corrupção" – enfim, uma ladainha circular de anseios antigos e massificados. As exceções ficam por conta de pessoas que aproveitam o espaço na TV para protestar contra obras abandonadas, problemas ambientais e carências de seus municípios – aspectos pontuais que, de toda forma, ainda conferem alguma utilidade concreta ao projeto.

Algumas lacunas são clamorosas. Não se veem, por exemplo, críticas ao Poder Judiciário ou ao Ministério Público, órgãos que também têm muitas mazelas, como o auxílio-moradia pago a quem não precisa, para não falar na já proverbial morosidade. Não encontrei uma palavra sequer sobre juízes que desprezam a liturgia do cargo, opinando publicamente sobre processos que vão julgar – uma aberração jurídico-institucional que escandaliza a muitos no Brasil de hoje. Nada, nem por meio de indiretas, sobre os erros, por vezes intencionais e grosseiros, da chamada grande imprensa. Nem uma menção à violência policial, ao corte dos investimentos em saúde e educação, à supressão de direitos trabalhistas, à troca de favores entre governo federal e parlamentares para evitar que um presidente da República fosse alvo de investigação.

A essas ausências soma-se um outro problema grave, também relacionado à concepção e ao direcionamento, que começa pela própria formulação da pergunta: “Que Brasil você quer para o futuro?” Existem, nessa proposição, duas falhas conceituais gritantes, que induzem a uma postura e balizam, por antecipação, os tipos de temas e abordagens desejados. A primeira falha é colocar, sintaticamente, o cidadão de um lado e o Brasil de outro, como se este não fosse parte integrante daquele. A segunda é investir essa "pessoa do povo" na condição de quem deseja ou precisa ser servido, e não de alguém que é parte ativa da História e, como tal, detém uma parcela pessoal e intransferível de responsabilidade.

Menos demagógico e mais produtivo teria sido convidar os brasileiros a dizerem como imaginam que podem mudar a realidade que os cerca, a partir de seus campos de atuação. A campanha, como concebida, coloca os participantes na posição de críticos dos outros – os políticos, em particular. Ignora-se o fato de que o Brasil que aí está – assim como o Brasil “do futuro” – nada mais é do que o resultado da soma de todas as atitudes individuais, certas ou erradas. E que os políticos, esses seres que "não nos representam", não vieram de Marte em um disco-voador. Eles só estão na vida pública porque, pouco fiscalizados pela imprensa e pelos eleitores, receberam e continuam recebendo votos de pessoas como eu e como você.

O resultado desse projeto de formulação equivocada, para dizer o mínimo, é uma coleção de desejos, quase exigências, que inspiram em seu conjunto uma atitude dissimulada e arrogante. Penso que, antes de ligar o celular para dizer qual o Brasil que se deseja para o futuro, a melhor atitude seria procurar um espelho e perguntar a si mesmo: “Será que tenho sido o tipo de cidadão de que o Brasil precisa para ser um grande país?” Muitos vídeos deixariam de ser gravados se, antes de ceder impulsivamente ao desejo de colocar a cara na telinha, cada um dos participantes fizesse um exercício de autoanálise, no silêncio de seu quarto, a sós com sua consciência e seus botões.

Existe uma máxima muito conhecida, pronunciada por John F. Kennedy ao tomar posse na Presidência dos Estados Unidos, em janeiro de 1961, que exemplifica bem esse raciocínio. Ele disse: “Não pergunte o que o seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país.” É um ponto de vista que sintetiza a importância dos valores e atitudes individuais, enquanto elementos de construção de uma nação onde a igualdade e as oportunidades tenham alguma chance de existir; um país onde os direitos sejam respeitados e as pessoas, valorizadas como imaginam que merecem.

É no sentido oposto que caminha a campanha da Rede Globo, como que a incutir em cada brasileiro a ideia de que o cidadão é um objeto passivo a ser atendido, uma espécie de reizinho sem cetro nem coroa que só tem sua voz – veiculada gentilmente pela emissora, desde que não ultrapasse os 15 segundos – para dizer aos “políticos” o que eles devem fazer e como o Brasil deve ser. A pretexto de se oferecer espaço a todos, na verdade o que se faz é confinar a reflexão sobre os problemas nacionais à periferia dos temas realmente importantes e que envolvem assuntos espinhosos, alguns dos quais acabam resvalando no próprio comportamento dos órgãos de comunicação.

Impossível imaginar para que servirá esse acervo descomunal de desejos capturados em vídeo, além de ocupar muitos gigabytes nos servidores da emissora. Primeiro, porque os políticos já sabem de tudo isso – certamente não há, nessas muitas horas de vídeo, algo que seja novo para eles. Segundo, porque nós, brasileiros, também já sabemos. E, finalmente, porque a simples repetição de clichês genéricos e superficiais, desprovida de qualquer forma de engajamento, organização ou mesmo um esforço consciente no sentido de votar em alguém que mereça, não tem o poder de mudar coisa alguma.

Talvez o grande beneficiário da iniciativa seja essa coisa que os estudiosos da mente chamam de ego. O ego da Rede Globo, por promover durante vários meses uma pseudomobilização de milhares de pessoas, levadas a crer que suas opiniões são valorizadas pela emissora, desde que, logicamente, não se contraponham aos cânones da mesma. E, na outra ponta, o ego dos participantes (ou seriam coadjuvantes?), satisfeitos por aparecerem na TV uma vez na vida, ainda que apenas para somar suas reivindicações e lições de moral a um vozerio confuso – por sinal, muito bem representado pelo áudio caótico da vinheta do projeto. E felizes, com seus poucos segundos de fama, por imaginar que alguém, além deles próprios, se interessa por aquilo que têm a dizer.


José Carlos Fineis é jornalista, editor, produtor de vídeo e sócio-proprietário da Loja de Ideias Produção Audiovisual, Jornalismo e Edição Ltda.




28 de jun de 2018

O que podemos (des)aprender com a história de Davi e Golias



Todo dia, as pessoas saem de suas camas sem saber como a jornada terminará. Nem Davi levanta-se vitorioso, nem Golias derrotado. E nem lhes é dada a opção de escolher entre ser este ou aquele. Cada um só tem a opção de ser o que é e trabalhar com aquilo que tem. Isso vale para tudo na vida e é claro que vale também para o Jornalismo.


Por José Carlos Fineis

O confronto entre Davi e Golias é narrado com detalhes no primeiro livro de Samuel, um dos chamados livros históricos do Antigo Testamento, que abrange, conforme estudiosos, fatos ocorridos no período de 1.100 a 1.000 antes de Cristo. Há mais de três mil anos, portanto, a história do pastor hebreu que abateu o gigante filisteu, uma das mais conhecidas da Bíblia, capturou a imaginação de pessoas simples, escritores e filósofos, e tem sido invocada como comprovação do poder de Deus – seu sentido original bíblico – ou, de forma mais abrangente, como exemplo de que tamanho nem sempre é documento: a liberdade de movimentos, a agilidade e a ousadia, combinadas, podem derrubar o maior e mais forte.

Tomo a história emprestada para propor um outro tipo de reflexão, que talvez não caiba num blog sobre Comunicação – ou talvez caiba, se estendermos a analogia bíblica para os muitos dilemas enfrentados atualmente pelo jornalismo, não só em termos de plataformas e de financiamento, mas, principalmente, em termos de compreensão da função social da informação e dos princípios elementares que devem reger essa atividade*.

De toda forma, o enfoque não é esse. O que quero propor é que o leitor se imagine como alguém que pudesse escolher entre ser Davi ou ser Golias, e responda quem preferiria ser. Não tenho dúvida de que, se essa pergunta for feita para um milhão de pessoas – desde que, obviamente, conheçam a história bíblica e seu desfecho –, todas, sem exceção, responderão que preferem ser Davi. Afinal, foi ele o vencedor.

Mas vamos tentar uma reflexão mais ousada. Suponha que Davi e Golias nunca se enfrentaram. Suponha que você está diante de dois guerreiros e que precisa apostar tudo o que tem na escolha de um vencedor. Suponha que o guerreiro de um dos exércitos seja um pastor de ovelhas, sem experiência em campos de batalha, munido apenas de uma atiradeira e cinco pedras lisas retiradas de um riacho, e que o combatente do outro exército seja descrito desta maneira: “Tinha dois metros e noventa centímetros de altura. Usava um capacete de bronze e vestia uma couraça de escamas de bronze que pesava sessenta quilos; nas pernas usava caneleiras de bronze e tinha um dardo de bronze pendurado nas costas. A haste de sua lança era parecida com uma lançadeira de tecelão, e sua ponta de ferro pesava sete quilos e duzentos gramas.”

Esqueça o contexto bíblico. Esqueça quem eles são. Em qual dos dois você apostaria? Certamente, não no mais fraco, inexperiente e desprotegido. Se retirarmos os nomes dos personagens e os analisarmos apenas por sua aparência, força física e armamentos, estou certo de que toda pessoa, sem exceção, afirmaria acreditar que o maior, mais forte e mais bem armado teria mais chances de vencer.

É nesse ponto que eu gostaria de chegar. Davi e Golias, na vida real, entraram no campo de batalha sem saber quem sairia vivo. Lembre-se: o Livro de Samuel ainda não havia sido escrito. Eles o estavam vivendo ali. Era a história sendo feita pelo entrelaçar de pensamentos, palavras, gestos e olhares, a céu aberto, em campo aberto, com cheiro de suor e de estrume de animais, entre sóis abrasadores e noites estreladas.

Talvez Davi tivesse uma confiança tão intensa, tão profunda em seu Deus que acreditasse, por todos os seus átomos e pensamentos, não haver a mínima possibilidade de ser derrotado. Mas Golias também tinha fé em seus deuses. Ele confiava de tal forma em sua força que durante 40 dias colocou-se à frente do exército filisteu e desafiou os hebreus a que designassem um homem para enfrentá-lo. Em sua suposta arrogância, oferecia-se, na verdade, para carregar nos ombros a responsabilidade da vitória e evitar uma carnificina entre seu exército e o exército inimigo, reduzindo-se toda a batalha a um confronto entre dois homens apenas: ele e quem se dispusesse a lutar com ele.

O relato de Samuel nos mostra um Davi extremamente seguro de sua capacidade. O jovem pastor, pelo menos no relato bíblico, não é um homem fraco, como acabou sendo representado em filmes e ilustrações. Apenas não é um guerreiro. Mas, segundo suas próprias palavras, está acostumado como pastor a lutar com leões e ursos, nos quais dá golpes até matá-los, para resgatar de suas bocas ovelhas subtraídas ao rebanho.

Ainda assim, ninguém acreditava que Davi teria alguma chance contra Golias. Talvez o jovem Davi estivesse apenas contando vantagem quando relatou essas façanhas ao rei Saul, para que este o deixasse lutar por Israel. Talvez, pensando mais longe, Saul apenas tivesse fingido acreditar na história de perseguir e enfrentar feras, e permitido a Davi enfrentar Golias simplesmente porque não tinha outra opção, já que durante 40 dias todos os homens de seu exército – ele, inclusive – haviam tido a chance de se apresentar no campo de batalha para bater-se com o gigante, mas preferiram recolher-se e dormir humilhados.

O que estou querendo dizer é que é muito fácil escolher entre ser Davi ou ser Golias, quando se conhece ou não se conhece o fim da história; fácil, porém enganoso, já que o conhecimento ou desconhecimento levam a opções diferentes. E nós, em nossas trajetórias de vida, não sabemos o fim da história. Logo, somos constantemente induzidos ao erro.

Com base na intuição, na lógica, na análise das probabilidades e em inúmeras outras informações e referências, concluímos que somos fracos ou fortes, poderosos ou impotentes. Mas isso não é a realidade – é apenas algo que nos foi incutido ou que nós mesmos apanhamos por aí, e de que nos convencemos. A história está sendo vivida neste exato momento, enquanto sorvemos o ar para dentro de nossos pulmões e enquanto nossos corações palpitam. Ela está sendo escrita primeiramente em nossos pensamentos, antes mesmo de podermos externá-la por palavras e ações e dar a ela uma existência palpável.

A única coisa certa é que existimos. O resto são crenças que adquirimos com base na observação, na comparação, nas intuições aparentemente lógicas que nossas mentes, moldadas para raciocinar de forma a assegurar a sobrevivência e evitar os perigos, desenvolveram ao longo de centenas de milhares de anos.

Todos os dias, pessoas aparentemente sem chances se apresentam no campo de batalha para enfrentar gigantes supostamente imbatíveis. Algumas vencem, outras não. Talvez a maior parte, como o exército de Saul, se recuse a lutar, por medo de ser trucidada. O inverso também ocorre. Na minha cidade, e creio que em grande parte das cidades ao redor do mundo, muitas foram as empresas familiares que dominaram um segmento de mercado durante uma ou duas gerações, e que, uma vez atingido o sucesso, acomodaram-se em suas posições de liderança até que fossem ultrapassadas por um ou mais concorrentes. Havia até um slogan, bastante utilizado por publicitários locais em décadas passadas: a gigante do ramo. Foram muitas as “gigantes do ramo” que faliram por uma combinação de desinteresse dos herdeiros, administrações medíocres e excesso de confiança.

A verdade é que não sabemos, de fato, quem é o grande ou o pequeno, quem é o Davi ou o Golias da vez. Seríamos mais felizes em nossos projetos de vida se deixássemos de ouvir esse vozerio interior em que se misturam nossos medos, os medos de nossos pais e de nossos antepassados, e apenas seguíssemos em frente, confiantes, alegres, criativos, preparados para sucumbir ou vencer com a consciência tranquila de quem, não podendo escolher para si um papel ideal em um livro de história, empenha-se e faz o seu melhor para que aquilo em que acredita se torne real.

O que os jovens empreendedores de sucesso e as grandes empresas falidas nos ensinam é que é preciso confiar menos nas aparências e mais na própria capacidade, mas não cegamente. Davi tinha uma fé inabalável em Deus, mas também confiava na força de seus braços e em sua pontaria, exercitada durante muitos anos em que precisou atacar com pedras as feras que assaltavam seu rebanho. O mesmo excesso de confiança que levou Davi à vitória, de maneira paradoxal, foi o que causou a morte de Golias, pois ele, embora tivesse um escudeiro que “seguia à sua frente”, aparentemente não carregava um escudo – ou teria se protegido com facilidade da pedra lançada por Davi.

Portanto, seja qual for o projeto que você tem em mente, faça um favor para si mesmo: apague, renegue, recuse toda ideia preconcebida a respeito de tamanho, poder e força, seja para mais ou para menos. Esses fatores são subjetivos e se manifestam muito mais pela capacidade do pensamento, da criatividade, da estratégia, do método e da dedicação do que por fatores externos como dinheiro, estrutura, fama ou marca. Todo dia, as pessoas saem de suas camas sem saber como a jornada terminará. Nem Davi levanta-se vitorioso, nem Golias derrotado. E nem lhes é dada a opção de escolher entre ser este ou aquele. Cada um só tem a opção de ser o que é e trabalhar com aquilo que tem. Diante de todas as pessoas – e não me refiro aqui apenas a pessoas livres e saudáveis – existe um oceano de possibilidades que lhes cabe explorar da melhor maneira possível. E isso não se faz sem controlar o medo, de forma confiante mas não arrogante, ousada mas não inconsequente, aplicada mas sem obsessão pelos resultados, pois muitas vezes são a impaciência e a pressa de ver os resultados que põem tudo a perder.

Este pensamento, esta forma de se posicionar diante da vida, aplica-se a tudo e a todos. Faça uma faxina mental e varra para fora de sua consciência todo conceito pré-fabricado deixado ali por sucessivas gerações, pelo famigerado “senso comum”, pelo suposto “bom senso”. Não se deixe enganar pelo que parece óbvio. Nada é óbvio na vida, a não ser as supostas obviedades em que acreditamos e que, por isso, condicionam nossos pensamentos, limitando nossa capacidade de imaginar, planejar e agir. Liberte-se da ideia de vitória ou derrota, do provável ou improvável, e apenas dedique-se a fazer o que pode fazer hoje, dando o melhor de si, com todas as suas forças e toda a carga possível de esperança.

Se o sucesso virá ou não, isso não é tão importante. E ninguém jamais saberá ao certo, pois esta é uma parte da história que não depende apenas de nossa vontade. Foi pela coragem em enfrentar um guerreiro temível que Davi se fez um grande homem. A pedrada mortal no inimigo tornou-o um vencedor, mas antes disso, por sua atitude, ele já era um vitorioso – e o ganhar ou o perder, você pode acreditar, não mudariam esse fato.

*No momento, penso muito nessa história e em seus muitos significados, graças à experiência com o recém-lançado projeto Sorocaba Plural - Jornalismo Cidadão, uma proposta inovadora de jornalismo feito pela e para a comunidade, na cidade de Sorocaba (SP).

José Carlos Fineis é jornalista, editor, videoprodutor e sócio-proprietário da Loja de Ideias Produção Audiovisual, Jornalismo e Edição Ltda.


13 de jun de 2018

O jornalismo honesto e bem feito tem uma chance maior de sobreviver

A questão que deveria importar não é o futuro do jornalismo impresso,
mas sim o futuro do próprio jornalismo (foto Pixabay)

















Para os que respeitam o leitor e o jornalismo em sua essência, as perspectivas de subsistência por meio de assinaturas, crowdfunding ou publicidade vinculada a audiência são melhores do que para os que tentam enganar seu público com um arsenal de meias-verdades e manipulações

Por José Carlos Fineis

Qual o futuro do jornalismo impresso? A pergunta tem sido feita com frequência nos últimos anos e a resposta, para a maior parte dos leitores, é irrelevante, pois o que interessa é o conteúdo, e não a forma como esse conteúdo é entregue.

O futuro do jornalismo impresso preocupa, com toda razão, a indústria de papel e de insumos gráficos, os órgãos de comunicação com uma cultura empresarial baseada em plataformas impressas (e que enfrentam dificuldades para se firmarem no ambiente digital) e os leitores que não abrem mão, como declaram com um certo romantismo, de folhear o jornal à mesa do café da manhã, sentindo o “cheiro da tinta” e tendo a experiência tátil de virar as páginas.

Estes leitores são cada vez mais raros – é uma questão geracional. E isso colocou toda uma cadeia produtiva em colapso, já sentido por alguns, iminente para outros. O público jovem e não tão jovem, que se acostumou a consumir informações a toda hora, em toda a parte e em tempo real, já elegeu a plataforma pela qual quer ser informado, e ela (por enquanto, ao menos) responde pelo nome de smartphone.

O que virá depois disso é impossível imaginar, mas algo mais moderno e funcional já está em gestação nas grandes empresas e startups, e certamente não é nada que não seja um passo adiante em tecnologia digital.

De toda forma, o que deveria causar preocupação não é o futuro do jornalismo impresso, mas sim o futuro do jornalismo independente e de qualidade, seja no formato impresso, seja nas plataformas digitais. A grande questão que se coloca, na verdade, é: será o jornalismo bem feito, já raro nas assim chamadas mídias tradicionais, capaz de sobreviver no ambiente caótico da internet, onde parece ser mais fácil conseguir audiência (e, consequentemente, receita publicitária) com fake news e fofocas sobre celebridades do que com notícias bem apuradas e reportagens bem escritas?

Com o esfacelamento dos modelos tradicionais de negócios, quem vai pagar salário ao jornalista para ir a campo e gastar seu tempo – horas, dias, semanas – com pesquisas e entrevistas, para cavar aquela informação que não estava à vista de todos nem foi enviada num press-release, e que só uma apuração eficiente poderia revelar?

Hoje, enquanto as mídias tradicionais lutam para se manter e as mídias digitais ainda procuram fórmulas para se estabelecer, tudo parece desfavorável ao trabalho do jornalista e à existência de veículos independentes. As mídias impressas têm cada vez menos espaço para realizar aquele que, por autodefinição, seria seu grande trunfo no contexto eminentemente digital: trazer notícias melhor apuradas, ou exclusivas, e análises que ajudem o leitor não apenas a saber o que ocorre, mas como e por que ocorre.

O que se vê, na prática, são jornais e revistas cada vez mais “magros”, com poucos artigos e notícias cada vez menos detalhadas – com a desvantagem de que os temas, em geral, já foram em sua maior parte vistos antes na TV ou na internet no dia anterior. Com redações menores e cada vez menos experientes (já que experiência representa um custo maior), está difícil para esses veículos trazer notícias exclusivas, reportagens investigativas e textos primorosos, que funcionariam, evidentemente, como diferenciais.

E, mesmo entre os que ainda contam com recursos humanos e materiais para fazer um bom trabalho, encontram-se restrições à informação plural e independente, geradas por pressões internas ou externas de natureza econômica, política, ideológica e corporativa – ou, igualmente nocivo, por um certo populismo midiático, que escolhe publicar apenas aquilo que imagina que “seu” público “quer ler”, e não o que a sociedade precisa saber.

O jornalismo vive dois impasses distintos, que se imbricam em grande parte: o da sustentabilidade das plataformas, de um lado, e, de outro, o do grau de comprometimento com um jornalismo bem feito, responsável e plural

As mesmas dificuldades, com exceção da falta de espaço, são encontradas nos serviços noticiosos da web, que ainda não desenvolveram modelos de negócios capazes de manter algo semelhante à estrutura de uma redação tradicional, com um corpo de repórteres razoável, uma equipe de TI, suporte jurídico, designers e afins. Não que alcançar essas condições seja impossível, mas o cenário atual está longe de ser muito mais favorável do que aquele vivido pelas mídias tradicionais. 

O resultado disso pode ser observado sem dificuldade: poucos são, no ambiente digital, os que geram conteúdo. A grande maioria, como eu, está confortavelmente sentada em seus escritórios, escrevendo em seus blogs opiniões sobre as notícias veiculadas pelos poucos que ainda se aventuram a ir a campo e suar a camisa para levantar a informação.

É um cenário preocupante, pois a sociedade não precisa apenas ser informada – ela precisa ser bem informada. Sem dúvida, é desalentadora a situação de centenas de municípios brasileiros que não contam com um único jornal ou site noticioso. Mas será que qualquer jornal, qualquer site noticioso cumpriria a função de informar corretamente, evitando que a informação fosse contaminada (como, em muitos casos, acaba ocorrendo) por interesses político-partidários ou econômicos, por laços de parentesco ou compadrio empregatício, ou mesmo pela visão de mundo limitada de um dono de jornal ou de um diretor de redação?

O jornalismo vive, como se vê, dois impasses distintos, que se imbricam em grande parte: o da sustentabilidade das plataformas, de um lado, e, de outro, o do grau de comprometimento com um jornalismo bem feito, responsável e plural.

Dentre tantas dúvidas, uma certeza é cristalina – mas, nem por isso, foi devidamente assimilada por todos os que estão neste ramo: um órgão de comunicação, seja ele um blog ou uma revista impressa, precisa ser muito necessário, indispensável mesmo, para ter uma chance de sobreviver no cenário atual. Isso exige um compromisso inegociável com valores fundamentais do bom jornalismo, como independência, pluralidade, honestidade da apuração, qualidade dos textos e da edição – numa palavra, um compromisso com a excelência que diferencia o supérfluo do essencial.

É claro que sempre haverá muitas desculpas para encerrar as atividades de um serviço noticioso, seja ele impresso ou on-line. Nestes tempos bicudos, desânimo é o que não falta. Mas muitos caminham para o ocaso quando ainda poderiam fazer alguma coisa para se diferenciar de todo o resto. Faltam anunciantes e os assinantes são escassos, é verdade, mas o que condena verdadeiramente um serviço noticioso é a recusa taxativa de tratar a informação com honestidade e buscar a excelência, se não em tudo, pelo menos naquilo que é essencial ao jornalismo – a disposição de se esforçar por ser verdadeiro, independente e plural.

Especialmente neste momento, em que as fake news infestam as redes sociais, tudo o que o leitor precisa e deseja é que a notícia seja um espelho o mais ético possível da realidade. Sob este ponto de vista, para os que respeitam o leitor e o jornalismo em sua essência, as perspectivas de subsistência por meio de assinaturas, crowdfunding ou publicidade vinculada a audiência são melhores do que para os que tentam enganar seu público com um arsenal de meias-verdades e manipulações – até porque a mentira tem pernas curtas e a manipulação, com as mídias sociais solapando desde as fundações os antigos latifúndios da informação, é facilmente detectada.

Neste ponto, é preciso abrir um parêntese para lembrar que toda crítica genérica é injusta. Existem, felizmente, muitos profissionais e veículos que se comportam com responsabilidade e respeito diante da informação e que têm clara em mente a sua função social. Democraticamente, permitem que seus canais de comunicação reflitam a realidade dos fatos e da diversidade de pensamentos, resistindo bravamente à tentação de transformá-los em extensões de suas visões de mundo. Não são muitos, mas estão aí, na luta. Com o tempo, eles tendem a ser beneficiados com esse que é o principal capital no ramo das comunicações – a credibilidade. Serão os pontos de referência da web, aos quais as pessoas recorrerão sempre que ficarem em dúvida sobre algo que leram em outro lugar.

Os outros – bem, os outros tentarão resistir com marketing, sorteios e outros artifícios. Muitos sobreviverão abraçando o jornalismo de serviços ou de entretenimento. Mas, em linhas gerais, seja nas mídias tradicionais, seja nas digitais, a frase atribuída a Abraham Lincoln continua mais atual do que nunca: “Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo.”

Em qualquer ramo de atividade, ter um bom produto, confiável e que satisfaça às expectativas dos consumidores, é condição fundamental para permanecer no mercado. Por que seria diferente com a informação?

José Carlos Fineis é jornalista, produtor de vídeo e editor