13 de jun de 2018

O jornalismo honesto e bem feito tem uma chance maior de sobreviver

A questão que deveria importar não é o futuro do jornalismo impresso,
mas sim o futuro do próprio jornalismo (foto Pixabay)

















Para os que respeitam o leitor e o jornalismo em sua essência, as perspectivas de subsistência por meio de assinaturas, crowdfunding ou publicidade vinculada a audiência são melhores do que para os que tentam enganar seu público com um arsenal de meias-verdades e manipulações

Por José Carlos Fineis

Qual o futuro do jornalismo impresso? A pergunta tem sido feita com frequência nos últimos anos e a resposta, para a maior parte dos leitores, é irrelevante, pois o que interessa é o conteúdo, e não a forma como esse conteúdo é entregue.

O futuro do jornalismo impresso preocupa, com toda razão, a indústria de papel e de insumos gráficos, os órgãos de comunicação com uma cultura empresarial baseada em plataformas impressas (e que enfrentam dificuldades para se firmarem no ambiente digital) e os leitores que não abrem mão, como declaram com um certo romantismo, de folhear o jornal à mesa do café da manhã, sentindo o “cheiro da tinta” e tendo a experiência tátil de virar as páginas.

Estes leitores são cada vez mais raros – é uma questão geracional. E isso colocou toda uma cadeia produtiva em colapso, já sentido por alguns, iminente para outros. O público jovem e não tão jovem, que se acostumou a consumir informações a toda hora, em toda a parte e em tempo real, já elegeu a plataforma pela qual quer ser informado, e ela (por enquanto, ao menos) responde pelo nome de smartphone.

O que virá depois disso é impossível imaginar, mas algo mais moderno e funcional já está em gestação nas grandes empresas e startups, e certamente não é nada que não seja um passo adiante em tecnologia digital.

De toda forma, o que deveria causar preocupação não é o futuro do jornalismo impresso, mas sim o futuro do jornalismo independente e de qualidade, seja no formato impresso, seja nas plataformas digitais. A grande questão que se coloca, na verdade, é: será o jornalismo bem feito, já raro nas assim chamadas mídias tradicionais, capaz de sobreviver no ambiente caótico da internet, onde parece ser mais fácil conseguir audiência (e, consequentemente, receita publicitária) com fake news e fofocas sobre celebridades do que com notícias bem apuradas e reportagens bem escritas?

Com o esfacelamento dos modelos tradicionais de negócios, quem vai pagar salário ao jornalista para ir a campo e gastar seu tempo – horas, dias, semanas – com pesquisas e entrevistas, para cavar aquela informação que não estava à vista de todos nem foi enviada num press-release, e que só uma apuração eficiente poderia revelar?

Hoje, enquanto as mídias tradicionais lutam para se manter e as mídias digitais ainda procuram fórmulas para se estabelecer, tudo parece desfavorável ao trabalho do jornalista e à existência de veículos independentes. As mídias impressas têm cada vez menos espaço para realizar aquele que, por autodefinição, seria seu grande trunfo no contexto eminentemente digital: trazer notícias melhor apuradas, ou exclusivas, e análises que ajudem o leitor não apenas a saber o que ocorre, mas como e por que ocorre.

O que se vê, na prática, são jornais e revistas cada vez mais “magros”, com poucos artigos e notícias cada vez menos detalhadas – com a desvantagem de que os temas, em geral, já foram em sua maior parte vistos antes na TV ou na internet no dia anterior. Com redações menores e cada vez menos experientes (já que experiência representa um custo maior), está difícil para esses veículos trazer notícias exclusivas, reportagens investigativas e textos primorosos, que funcionariam, evidentemente, como diferenciais.

E, mesmo entre os que ainda contam com recursos humanos e materiais para fazer um bom trabalho, encontram-se restrições à informação plural e independente, geradas por pressões internas ou externas de natureza econômica, política, ideológica e corporativa – ou, igualmente nocivo, por um certo populismo midiático, que escolhe publicar apenas aquilo que imagina que “seu” público “quer ler”, e não o que a sociedade precisa saber.

O jornalismo vive dois impasses distintos, que se imbricam em grande parte: o da sustentabilidade das plataformas, de um lado, e, de outro, o do grau de comprometimento com um jornalismo bem feito, responsável e plural

As mesmas dificuldades, com exceção da falta de espaço, são encontradas nos serviços noticiosos da web, que ainda não desenvolveram modelos de negócios capazes de manter algo semelhante à estrutura de uma redação tradicional, com um corpo de repórteres razoável, uma equipe de TI, suporte jurídico, designers e afins. Não que alcançar essas condições seja impossível, mas o cenário atual está longe de ser muito mais favorável do que aquele vivido pelas mídias tradicionais. 

O resultado disso pode ser observado sem dificuldade: poucos são, no ambiente digital, os que geram conteúdo. A grande maioria, como eu, está confortavelmente sentada em seus escritórios, escrevendo em seus blogs opiniões sobre as notícias veiculadas pelos poucos que ainda se aventuram a ir a campo e suar a camisa para levantar a informação.

É um cenário preocupante, pois a sociedade não precisa apenas ser informada – ela precisa ser bem informada. Sem dúvida, é desalentadora a situação de centenas de municípios brasileiros que não contam com um único jornal ou site noticioso. Mas será que qualquer jornal, qualquer site noticioso cumpriria a função de informar corretamente, evitando que a informação fosse contaminada (como, em muitos casos, acaba ocorrendo) por interesses político-partidários ou econômicos, por laços de parentesco ou compadrio empregatício, ou mesmo pela visão de mundo limitada de um dono de jornal ou de um diretor de redação?

O jornalismo vive, como se vê, dois impasses distintos, que se imbricam em grande parte: o da sustentabilidade das plataformas, de um lado, e, de outro, o do grau de comprometimento com um jornalismo bem feito, responsável e plural.

Dentre tantas dúvidas, uma certeza é cristalina – mas, nem por isso, foi devidamente assimilada por todos os que estão neste ramo: um órgão de comunicação, seja ele um blog ou uma revista impressa, precisa ser muito necessário, indispensável mesmo, para ter uma chance de sobreviver no cenário atual. Isso exige um compromisso inegociável com valores fundamentais do bom jornalismo, como independência, pluralidade, honestidade da apuração, qualidade dos textos e da edição – numa palavra, um compromisso com a excelência que diferencia o supérfluo do essencial.

É claro que sempre haverá muitas desculpas para encerrar as atividades de um serviço noticioso, seja ele impresso ou on-line. Nestes tempos bicudos, desânimo é o que não falta. Mas muitos caminham para o ocaso quando ainda poderiam fazer alguma coisa para se diferenciar de todo o resto. Faltam anunciantes e os assinantes são escassos, é verdade, mas o que condena verdadeiramente um serviço noticioso é a recusa taxativa de tratar a informação com honestidade e buscar a excelência, se não em tudo, pelo menos naquilo que é essencial ao jornalismo – a disposição de se esforçar por ser verdadeiro, independente e plural.

Especialmente neste momento, em que as fake news infestam as redes sociais, tudo o que o leitor precisa e deseja é que a notícia seja um espelho o mais ético possível da realidade. Sob este ponto de vista, para os que respeitam o leitor e o jornalismo em sua essência, as perspectivas de subsistência por meio de assinaturas, crowdfunding ou publicidade vinculada a audiência são melhores do que para os que tentam enganar seu público com um arsenal de meias-verdades e manipulações – até porque a mentira tem pernas curtas e a manipulação, com as mídias sociais solapando desde as fundações os antigos latifúndios da informação, é facilmente detectada.

Neste ponto, é preciso abrir um parêntese para lembrar que toda crítica genérica é injusta. Existem, felizmente, muitos profissionais e veículos que se comportam com responsabilidade e respeito diante da informação e que têm clara em mente a sua função social. Democraticamente, permitem que seus canais de comunicação reflitam a realidade dos fatos e da diversidade de pensamentos, resistindo bravamente à tentação de transformá-los em extensões de suas visões de mundo. Não são muitos, mas estão aí, na luta. Com o tempo, eles tendem a ser beneficiados com esse que é o principal capital no ramo das comunicações – a credibilidade. Serão os pontos de referência da web, aos quais as pessoas recorrerão sempre que ficarem em dúvida sobre algo que leram em outro lugar.

Os outros – bem, os outros tentarão resistir com marketing, sorteios e outros artifícios. Muitos sobreviverão abraçando o jornalismo de serviços ou de entretenimento. Mas, em linhas gerais, seja nas mídias tradicionais, seja nas digitais, a frase atribuída a Abraham Lincoln continua mais atual do que nunca: “Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo.”

Em qualquer ramo de atividade, ter um bom produto, confiável e que satisfaça às expectativas dos consumidores, é condição fundamental para permanecer no mercado. Por que seria diferente com a informação?

José Carlos Fineis é jornalista, produtor de vídeo e editor


6 de jul de 2014

Mais de mim mesmo

(Queria o quê? O blogue é meu!)






O bom jornalista é uma janela que deixa ver o que tem do outro lado da parede. O mau jornalista é o cara que constrói a parede.

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Só existe um caminho seguro para adquirir vivência e experiência: viver e experimentar.

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A unanimidade não é burra: é ficção. Ela simplesmente não existe. Se algo for apresentado a você como unânime, desconfie. Por trás das unanimidades, tem sempre algum interesse, alguma pesquisa furada, alguém querendo vender alguma coisa.

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As soluções surgem naturalmente quando procuramos as pessoas certas e lhes perguntamos: o que você me aconselha a fazer?

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Vicia como crack, alucina como LSD, faz a pessoa pagar micos como cachaça. Assim é ela, Dona Vaidade.

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A história não é contada necessariamente pelos vencedores, mas pelos sobreviventes.

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Por que os que recebem mais da vida são os que mais reclamam?

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Sofisticação é desligar o som pra ouvir a chuva.

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Às vezes, tudo o que impede uma pessoa de cometer um ato vil é a incapacidade de inventar uma boa desculpa.

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Diga sim ou diga não. Não deixe sem resposta. Deixar de responder, seja lá o que for, é uma falha de caráter abominável numa pessoa civilizada.

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As escolhas ocorrem invariavelmente. Quando você não escolhe, a vida escolhe por você.

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Quando eu era adolescente, imaginava o ano 2000 como algo muito distante, quase uma ficção. Hoje voltei a ter essa sensação em relação ao mesmo ano 2000.

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Cultivar uma amizade exige paciência como o bonsai e delicadeza como a ikebana. Perder um amigo é menos complicado: basta ser sincero.

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Não podemos mudar o passado, mas podemos mudar a forma como nos relacionamos com ele.

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O preconceito é o equivalente moral do nariz sujo. Todo mundo percebe, só o dono do nariz que não.

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Um homem batendo numa mulher, não importam as circunstâncias, os precedentes, as posições defendidas ou se este veste farda e aquele não, é sempre uma imagem chocante que não deveria ocorrer.

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Para quem procura nos lugares errados, uma vida inteira é pouco para encontrar.

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Se soubesse que ia ralar tanto, teria deixado outro espermatozoide passar na minha frente.

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Seja homem, fique firme e enfrente seu problema. A menos que ele tenha quatro patas, um par de chifres e pese meia tonelada. Então corra!



Foto da Lua: José C. Fineis



22 de jun de 2014

O falso Felipão e a festa de bicadas

Capa de Um estranho no ninho (One flew over the
 cuckoo's nest), de Ken Kesey, publicado no
ano em que eu nasci (1962). Este, por sinal, foi um dos
livros que mais me influenciaram na adolescência e
por toda a vida, mas essa já é outra história.

Por José Carlos Fineis

Sobre o episódio da entrevista com o falso Felipão, vejo que muitos jornalisas se comprazem em estraçalhar publicamente um colega, porque cometeu um erro. Agora eu pergunto: quem de nós -- digo, dos que estão metidos no fogo cruzado das redações, e não encastelados em cátedras ou coisas semelhantes -- nunca errou? 

Aponte-me um jornalista que não erra, e eu lhe mostrarei um grande mentiroso. No mínimo, ele acoberta seus erros. Ou nunca atuou na área.

Digo sempre que o bom jornalista não é aquele que não comete erros, mas sim aquele que sabe reconhecê-los com humildade e corrigi-los, com a máxima transparência. E foi isso o que o colunista em questão fez. O que mais querem que ele faça: que cometa suicídio ou vá embora do País?

A forma como está sendo criticado por pessoas que também erram me fez lembrar um trecho do romance Um estranho no ninho, de Ken Kesey, em que Randall Patrick McMurphy, o valentão que se faz passar por louco para não ir para a cadeia e acaba num hospício, diz aos colegas de terapia que eles parecem galinhas numa festa de bicadas.

Alguém pergunta o que vem a ser isso, e ele explica:

"(...) O bando avista uma mancha de sangue numa galinha qualquer e todos eles começam a bicá-la, sabe, até que estraçalham a galinha em pedaços, sangue e ossos e penas. Mas normalmente um par das aves do bando ganha também sua ferida na confusão, então é a vez delas. E mais algumas ficam machucadas e são bicadas até a morte, e mais outras e outras. Ah, uma festa de bicadas pode acabar com o bando inteiro em uma questão de horas, companheiro, eu já vi.(...)"

Então, colegas, boa festa de bicadas pra vocês. E preparem o traseiro, porque, da próxima vez que vocês errarem, já sabem o que vai acontecer.