22 de jan de 2012

Gil de Mello morreu. Viva Gil de Mello!


Por José Carlos Fineis


Ainda não me convenci de que meu amigo Gil de Mello morreu. Sei que é lugar comum, mas continuo com a sensação de que ele, a qualquer momento, vai bater na minha porta, com aquele sorriso bonito, elegantemente vestido como da última vez que esteve em casa, um verdadeiro gentleman de colete bege e sapatos claros, mais parecendo um integrante da comissão de frente de uma escola de samba que fugiu por alguns instantes da passarela só para me convidar para um evento de que ele tomaria parte naquela noite.
Não tenho dúvida de que Gil era um dos grandes do teatro brasileiro. Era o nosso Zé Celso Martinez Corrêa, e, além de tudo, era um homem admirável. Sua história de vida é cheia de sacrifícios. Muito cedo, o pai faleceu e ele teve de arrumar um emprego para ajudar a mãe e os irmãos menores. Trabalhou quase a vida toda como vendedor de um pastifício. Casou-se mas logo se separou, por motivos que ele, sempre muito ético, não gostava de dizer. Criou sozinho seu filho João, sem ajuda de ninguém. Quando saía para trabalhar, deixava o menino trancado em casa, mas não havia nenhuma negligência nisso: apenas necessidade. Os dois sempre foram grandes amigos.
Como diretor de teatro, Gil de Mello enfrentou a censura à frente da peça Bastam dois para dançar um bom bolero, nos idos dos anos 1970, quando a ditadura estava no auge. Num festival de teatro, pressionado para mudar o enredo, combinou uma coisa com os censores e mandou os atores fazerem outra. A peça terminava com um nu frontal masculino, que foi uma explosão de rebeldia e incendiou a plateia. O público, extasiado mas temendo o pior, fez um cordão de isolamento e impediu que Gil fosse preso.
Mais recentemente, nos anos 90, Gil tirou Gota d'água (de Chico Buarque e Paulo Fontes) da gaveta depois de 25 anos sem ser montada, e não quis a glória de dirigi-la só para si, preferindo dividir a direção com o amigo Carlos Roberto Mantovani. Na única vez que o entrevistei, Gil chorou ao lembrar do velório da Mantovani na Oficina Cultural Grande Otelo. Quando retiraram o caixão, o público que estava na praça aplaudiu longamente. Essas coisas emocionavam Gil, e a forma como ele as contava, com a voz embargada e os olhos marejados, emocionava a gente.
Gil era autodidata e isso nos aproximava ainda mais. Admirava sua devoção pelo teatro e a forma como o praticava, sem estrelismo, sempre muito compenetrado e profissional. Entendia de luz, de som, de cenário. Homem vivido, comentava as reações dos personagens como se fossem pessoas reais. Por isso seu teatro era verdadeiro, não tinha essa afetação e esnobismo tão comuns em alguns artistas e em tantas produções. Era de vanguarda sem ser petulante. Sua inteligência era dessas que nos fazem sentir inteligentes, não das que nos deixam com a sensação de que somos burros.
Para resumir: Gil Pinheiro de Mello era o cara, e eu sempre me senti orgulhoso por ser seu amigo. Uma vez, quando divulgávamos a peça Gota d'água, ele se envolveu num acidente de carro com minha mulher, Sandra Nascimento. Fez uma barbeiragem na avenida Coronel Nogueira Padilha e quase me deixou viúvo. Chegaram os dois assustados em casa. Era um péssimo motorista, o que, em se tratando de trânsito sorocabano, equivale a dizer que era um sobrevivente. Viveu 81 anos muito bem vividos. Morreu sem estardalhaço. Eu não estava perto, mas imagino que talvez uma lágrima tenha rolado pelo seu rosto. Uma lágrima e um sorriso de compreensão, como quem diz: “Tudo bem, estou pronto.” É uma imagem bem Gil de Mello, bem teatral. Tenho certeza de que sua despedida deve ter sido mais ou menos assim.
Penso que, agora que Gil morreu, logo começará a ser valorizado, como ocorreu com Mantovani, outro lutador do teatro local. Não fosse o fato de que se tem de morrer, o que é péssimo em muitos sentidos, a morte poderia ser definida como um ótimo negócio, principalmente para artistas sorocabanos. Basta passar desta para melhor para ser reconhecido por aqueles que nem olhavam para seu lado e não lhe davam um tostão, quando vivo.
Nós do interior somos como os astecas, sempre esperando por um deus dourado que virá do Oriente, sempre com os olhos fixos no horizonte à espera de um cavaleiro emplumado. Não percebemos que os deuses estão aqui mesmo e tropeçamos neles todos os dias. Desde os tempos em que damas com pesadas saias desembarcavam de carruagens no teatro São Rafael, pulando de pedra em pedra para não sujar as barras com a lama vermelha das ruas, nossa cultura interiorana nos leva a esperar que os grandes talentos venham de São Paulo, do Rio ou ainda de mais longe, se hospedem no melhor hotel da cidade e, quando muito, sejam vistos em algum lugar público, com uns óculos escuros gigantescos, comendo uma de nossas pizzas ou aquela coxinha com catupiri que já boterizou tantas mulheres formosas por aqui.
Gente viva nos incomoda. Amamos o imaterial, o imagético. Homens e mulheres reais ocupam espaço, comem nossa sobremesa, pedem coisas, nem sempre cheiram bem e, ainda por cima, competem conosco pelas verbas, pelo espaço na mídia. Gostamos dos estrangeiros porque não são um dos nossos e porque somos colonizados, mas gostamos, principalmente, dos mortos, porque simplesmente não estão aqui. Um morto estrangeiro, então, nem se fala! Um morto é uma lacuna, é como um texto que podemos editar conforme o espaço que temos e a “verdade” que queremos ver por ele representada (e com a tranquilidade de saber que o fulano não irá reclamar). É diferente de um vivo que tem essa terrível mania de querer falar por si e discordar das coisas.
Fico pensando o que seria de um Oswald de Andrade se ainda fosse vivo e, por alguma contingência do destino, morasse em Sorocaba (os pais de Pagu tinham uma fazenda por aqui). Ririam dele nas festas por causa de seus ternos amassados? Condenariam sua glutonice e seu hábito de namorar mulheres jovens? Dariam medalhas a ele nas datas comemorativas, ou seria desprezado por não ter um Honda Civic e por ter recebido uma verba da Linc e não ter terminado seu projeto "ainda"? Seria recebido com pompas nas redações, para falar de seu livro mais recente, ou ficaria esperando nas recepções enquanto repórteres mal-humorados comentariam em voz baixa que “aquele chato está aí de novo” e tirariam a sorte para decidir quem iria atendê-lo?
Logo começará o processo de canonização de Gil de Mello. Surgirá um prêmio de teatro com seu nome. Quem sabe, uma ponte (seria maravilhoso, ele que era uma ponte viva entre as pessoas). Mas quero dizer que esse será outro Gil. Um Gil quadrado, por assim dizer; pasteurizado como o leite que engolimos toda manhã e enfeitado como bolo de casamento. Talvez, no aniversário de sua morte, ou quando um jornalista local resolver transformar sua história em livro (fica a pauta), sua melhor foto seja publicada numa capa de caderno, com alguma frase bonita entre aspas e um título que pretenderá traduzir a essência de seu espírito por toda a eternidade. Algo pueril e lacônico, exatamente como ele não era. Algum editor esperto perceberá que é preciso “resgatar” Gil, antes que outro o faça, e isso será feito facilmente, ainda que sem muita profundidade, já que ele era mesmo um gigante.
Fico deprimido com a justiça tardia, que chega depois que a pessoa já não está mais circulando por aí, nem tem projetos e sonhos por realizar. Mas, também, o que esse cara queria, com sua cabeça branca, seus olhos morteiros, seu sorriso fácil? Gil era humano demais, vivo demais, falante demais para ser endeusado pela intelligentsia asteca. Assim como agora incensam Mantovani, que vivia por aí pedindo patrocínios e enfrentava dificuldades tremendas para levar suas peças à cena, as portas todas se abrirão para Gil a qualquer momento, e ninguém perceberá a ironia disso tudo, já que ele não pode mais passar por elas.
Agora Gil está de bom tamanho para nossa tradição, que só consegue enxergar o que não é visível, o que vem de longe (e logo voltará para longe), o que não está aqui. Sinto saudades do Gil verdadeiro e sei que ele estava pouco se lixando para o sucesso na terrinha de Baltasar Fernandes, mas lamento que ele não tenha sido mais festejado e reconhecido, pois era um dos grandes, sem dúvida, e era nosso! O que farão por sua memória não faz muita diferença, agora; e nem todas as pontes do mundo, com placas enormes contendo seu nome, poderiam nos informar quem foi Gil de Mello, de verdade. Gil era um sonhador. Sua matéria-prima era a emoção. Ele a transformava em belas peças de teatro, que marcaram quem as assistiu por toda a vida. Como esquecer de Gota D'água? Como esquecer de Gil descendo dos andaimes da iluminação depois da peça, para nos dar um abraço apertado e chorar no nosso ombro?
A história nos ensina lições preciosas todos os dias, mas só as aprendemos tarde demais. Um vez eu disse que existem duas formas de fazer sucesso em Sorocaba: ser de fora e vir para cá ou ser daqui e ir para fora. Existe também essa terceira opção, que me recuso a aconselhar aos jovens artistas: bater as botas. No dia em que Gil virar nome de rua, ou de praça, ou de ponte, talvez eu me dê conta de que ele não virá mais me visitar. Quando um artista de Sorocaba é reconhecido por seus conterrâneos, só então podemos ter certeza de que ele morreu.