27 de dez de 2010

Confiar cegamente em release, um erro sempre comum nas redações


Por José Carlos Fineis


Jornalistas que atuam nas redações deveriam ter duas atitudes em relação às assessorias de imprensa: respeito e precaução.

Respeito pelos assessores, que são colegas ganhando a vida numa função difícil e imprescindível - e, mesmo assim, desvalorizados, sobrecarregados e pressionados por clientes insaciáveis.

Precaução com os releases, e não porque não sejam, em princípio, confiáveis naquilo que informam, mas porque representam apenas um lado, e são redigidos dentro de limites estreitos impostos pela necessidade de divulgar fatos positivos.

Em minha vida profissional, tenho visto acontecer exatamente o contrário: esnoba-se o assessor, tratado geralmente como alguém que “depende” do veículo, mas confia-se cegamente nos releases, que - até por causa da correria e do excesso de serviço - acabam sendo publicados na íntegra e sem checagem.

Isso é péssimo para os jornalistas e pior ainda para o jornalismo, pelo risco de se repassar informações parciais e escritas sob uma ótica "otimista", que nem sempre é a mais realista.

Especialmente quando são citadas pesquisas e estatísticas, os releases devem ser vistos com reservas, pois há uma tendência natural das assessorias de valorizar os dados positivos e menosprezar, ou mesmo suprimir, os negativos.

Algumas vezes, isso pode falsear a informação. Dou o exemplo de um caso real.

O release (não importam o "onde" e o "quem"; isso já tem um bom tempo) dizia que a mortalidade infantil havia caído tantos por cento em relação a cinco anos atrás. Era uma boa notícia e foi dada como manchete de primeira página. Depois da publicação é que se desconfiou: por que o índice foi comparado com o de cinco, e não com o de quatro ou o de sete anos atrás? Os dados foram checados, e descobriu-se que cinco anos antes fora registrado um índice excepcionalmente alto, que destoava de toda a média histórica anterior e posterior a ele. E foi em relação a esse índice, justamente, que o autor do release optou por fazer a comparação, de forma que se evidenciasse uma redução impressionante. A opção acabou alterando a essência da notícia e gerando a impressão de uma grande redução na mortalidade infantil, quando o índice atual, na verdade, não era muito menor que a média histórica.

Quantas vezes não vemos releases informando que determinado serviço público atendeu tantas mil pessoas no mês passado? É um número solto no ar, sem qualquer relação de proporcionalidade que permita concluir se é bom ou ruim. Mas, se o número for alto (cem mil, duzentos mil), é possível que a informação seja dada com destaque pelos veículos. Números altos sempre impressionam.

Uma notícia como essa jamais deveria ser publicada sem que se procurasse levantar pelo menos duas referências fundamentais: 1) Em relação à média do atendimento e ao mesmo mês do ano passado, o número divulgado é maior ou menor? 2) Os atendimentos ocorreram num universo de quantas pessoas que procuraram o serviço? Há filas? Há lista de espera? Há gente voltando para casa sem ser atendida?

Número descontextualizados são armadilhas que mais enganam do que esclarecem. Somente comparações (quanto à evolução histórica da prestação do serviço e à demanda existente) permitem que se tenha a verdadeira dimensão - positiva ou negativa - do número divulgado. Por fim, é preciso lembrar que números podem ser grandes e bonitos, e até representar melhoras quantitativas, sem que reflitam uma melhoria efetiva no serviço prestado à população. Por exemplo: se o tempo médio das consultas nos postos de saúde for reduzido à metade, o atendimento irá aumentar, mas a qualidade do atendimento fatalmente irá cair. Uma boa reportagem nos locais de atendimento, em que os usuários sejam ouvidos sobre suas experiências pessoais, com certeza transmitirá ao público uma informação mais honesta sobre a realidade de um serviço público do que números, apenas.

O ideal é que o release seja visto como um ponto de partida, algo a ser complementado sempre que necessário, mesmo que isso implique não publicar a informação junto com os outros veículos que receberam a notícia. É preferível publicar depois, porém com mais profundidade e correção.




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10 de dez de 2010

Quanto mais eficiente for o jornalista, mais indigesto ele será para o poder


Por José Carlos Fineis



O site WikiLeaks obrigou os jornalistas a uma reflexão radical sobre si mesmos. Uma reflexão indispensável sobre o quanto estão dispostos a ser eficientes em sua missão de informar e, consequentemente, de impor aos agentes políticos um grau de transparência que lhes é absolutamente embaraçoso e comprometedor.

Governantes, mesmo os mais democráticos, evitam a transparência.

E isso porque transparência, em última análise, significa o fim do caixa dois, dos superfaturamentos, das concorrências direcionadas, das contratações irregulares, do nepotismo, da impunidade, dos favorecimentos, dos acordos fisiológicos, dos pequenos e grandes vícios que fazem do poder político, em sua convergência com o poder econômico, um negócio eminentemente privado, quando deveria ser 100% público.

Ainda que nada disso exista, e que o político seja bem intencionado, sua tendência será sempre a de tirar proveito do jornalista, usando-o para divulgar aquilo que quer ver publicado, e que não é, necessariamente, o que precisa ser conhecido.

Logo, quanto mais o jornalista for eficiente e conseguir expor o que acontece nos bastidores da política e da administração pública, mais será desprezado por políticos e governantes.

O jornalista que assume integralmente um compromisso profissional com a sociedade deve saber que não terá amigos entre os poderosos. Sua missão é informar, e a qualquer momento, desde que não se faça de morto, sua capacidade de executar bem essa missão o colocará em rota de colisão com os que gostariam de vê-lo simplesmente copidescando releases.

Não é outro o motivo pelo qual Julian Assange foi jogado numa cela de cadeia, enquanto tantos repórteres e editores confraternizam com os agentes públicos, na qualidade de amigos e comensais do poder.

Embora muitos jornalistas se esforcem por não percebê-lo, o ensinamento bíblico de que não se pode servir a dois senhores se aplica perfeitamente a esta profissão.

Quem escolhe servir a sociedade exclui, invariavelmente, qualquer possibilidade de convivência amigável com o poder.

E quem escolhe ser amigo do poder afasta, automaticamente - na proporção inversa de seu envolvimento -, a possibilidade de ser útil para a sociedade.

O jornalista consciente de seu papel vai às festas a serviço, ou não vai. Trata as autoridades com educação, mas sem intimidades. Rejeita privilégios; não fura filas. Quer ser tratado nas repartições como qualquer cidadão. Não aceita descontos, declina polidamente das homenagens. E sabe recusar, com elegância, os presentes com que os poderosos tentam conquistá-lo.

Sei que é difícil renunciar a tudo isso. Mas o distanciamento em relação ao poder que seduz e alicia, seja ele político ou econômico, é condição elementar ao exercício honesto do jornalismo.




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5 de dez de 2010

Recrudesce a resiliência: e o leitor que não é doutor, como fica?

Por José Carlos Fineis


Confesso que levei um susto quando vi a palavra "resiliência" escrita em reportagens, usada para definir característica da personalidade de uma pessoa. Confesso, também, que até então não sabia exatamente o significado da palavra, que já tinha lido algumas vezes, não lembro bem onde (parece que em textos de RH sobre as qualidades desejadas num colaborador - algo nesse sentido).

É claro que, pelo contexto geral das frases, consegue-se intuir mais ou menos o significado, mas o sentido exato (que, aliás, é um pouco diferente daquilo que eu havia imaginado) só descobri mesmo consultando um dicionário.

Coloco uma questão para o leitor refletir e responder (se quiser, é claro): uma palavra científica como essa, usada apenas em círculos restritos, deve ser inserida em reportagem de jornal, como se fosse um adjetivo qualquer? Não estaria o jornalista, ao fazê-lo, contrariando o preceito que manda buscar a simplicidade para concretizar a comunicação, com a máxima eficiência?

Veja bem: não sou dono da verdade. Apenas coloco um tema para debate, a partir de algo que, a mim particularmente, causa estranheza.

Sempre imaginei que um jornal devesse perseguir um texto simples, claro e objetivo (o que não quer dizer simplório ou malfeito). Se, no decorrer de uma reportagem, surge a vontade de escrever “evadiu-se”, deve-se resistir a ela, e usar o bom e velho “fugiu”. E isso porque essa pessoa que está do outro lado (lembra dela?), o leitor, pode tanto ser um acadêmico quanto um operário, um idoso que não teve oportunidade de ir à escola ou um jovem que foi, mas caiu na armadilha da “aprovação automática”, essa fábrica de analfabetos funcionais.

Na minha opinião, o jornalista deve escrever corretamente, buscar formas criativas e bonitas de comunicar, porém evitando palavras ou construções que se coloquem como obstáculos entre o leitor e o entendimento do assunto.

É claro que se pode argumentar o contrário, que um jornal deve colaborar para melhorar o vocabulário do leitor. Será mesmo? É um dado a se considerar. Mas creio que, se assumirem isso como regra, o repórter e o editor acabarão comodamente selecionando o modo “tô nem aí” e se afastarão mais e mais do público.

Maiakóvski foi um poeta russo que perseguiu durante toda a vida uma linguagem inovadora e revolucionária. Mas, como a poesia envolve sempre muitas ideias abstratas, era acusado de ser “incompreensível para as massas”. Num debate famoso, ao ouvir pela milésima vez essa acusação, ele replicou que era preciso melhorar a educação do povo, e não rebaixar o nível da poesia. Com o tempo, porém, admitiu - ele, que era poeta - que precisava “escrever de modo a ser entendido pelo maior número possível de ouvintes”.

A recente ofensiva da "resiliência" me fez lembrar um caso parecido. Nos anos oitenta, um palavrão saltou do dicionário e caiu nas graças das redações de todo o Brasil. Quem, como eu, já viveu bem mais de quarenta primaveras certamente se recorda do "recrudescimento" (aumento, agravamento), que foi usado em matérias sobre inflação e violência, entre outros temas, a ponto de não mais se aguentar. Com o tempo, a palavra saiu de moda e os repórteres e editores voltaram a usar um português inteligível para dizer que a inflação cresceu e a criminalidade aumentou.

Não quero, com essas considerações, afirmar que a linguagem jornalística deva ser resumida a textos meramente informativos, desprovidos de um vocabulário variado e eficiente. Mas acredito que, em jornal, principalmente quando se escreve para a generalidade dos leitores, deve-se evitar tudo o que atrapalha a compreensão do texto. E, mais ainda, quando existe a opção de usar uma palavra mais acessível e que todo mundo conhece.




PS.: Caso a palavra pouco conhecida precise mesmo ser usada (numa citação entre aspas, por exemplo), é recomendável colocar o significado entre parênteses. O leitor, que geralmente não é doutor, agradece.





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