5 de dez de 2010

Recrudesce a resiliência: e o leitor que não é doutor, como fica?

Por José Carlos Fineis


Confesso que levei um susto quando vi a palavra "resiliência" escrita em reportagens, usada para definir característica da personalidade de uma pessoa. Confesso, também, que até então não sabia exatamente o significado da palavra, que já tinha lido algumas vezes, não lembro bem onde (parece que em textos de RH sobre as qualidades desejadas num colaborador - algo nesse sentido).

É claro que, pelo contexto geral das frases, consegue-se intuir mais ou menos o significado, mas o sentido exato (que, aliás, é um pouco diferente daquilo que eu havia imaginado) só descobri mesmo consultando um dicionário.

Coloco uma questão para o leitor refletir e responder (se quiser, é claro): uma palavra científica como essa, usada apenas em círculos restritos, deve ser inserida em reportagem de jornal, como se fosse um adjetivo qualquer? Não estaria o jornalista, ao fazê-lo, contrariando o preceito que manda buscar a simplicidade para concretizar a comunicação, com a máxima eficiência?

Veja bem: não sou dono da verdade. Apenas coloco um tema para debate, a partir de algo que, a mim particularmente, causa estranheza.

Sempre imaginei que um jornal devesse perseguir um texto simples, claro e objetivo (o que não quer dizer simplório ou malfeito). Se, no decorrer de uma reportagem, surge a vontade de escrever “evadiu-se”, deve-se resistir a ela, e usar o bom e velho “fugiu”. E isso porque essa pessoa que está do outro lado (lembra dela?), o leitor, pode tanto ser um acadêmico quanto um operário, um idoso que não teve oportunidade de ir à escola ou um jovem que foi, mas caiu na armadilha da “aprovação automática”, essa fábrica de analfabetos funcionais.

Na minha opinião, o jornalista deve escrever corretamente, buscar formas criativas e bonitas de comunicar, porém evitando palavras ou construções que se coloquem como obstáculos entre o leitor e o entendimento do assunto.

É claro que se pode argumentar o contrário, que um jornal deve colaborar para melhorar o vocabulário do leitor. Será mesmo? É um dado a se considerar. Mas creio que, se assumirem isso como regra, o repórter e o editor acabarão comodamente selecionando o modo “tô nem aí” e se afastarão mais e mais do público.

Maiakóvski foi um poeta russo que perseguiu durante toda a vida uma linguagem inovadora e revolucionária. Mas, como a poesia envolve sempre muitas ideias abstratas, era acusado de ser “incompreensível para as massas”. Num debate famoso, ao ouvir pela milésima vez essa acusação, ele replicou que era preciso melhorar a educação do povo, e não rebaixar o nível da poesia. Com o tempo, porém, admitiu - ele, que era poeta - que precisava “escrever de modo a ser entendido pelo maior número possível de ouvintes”.

A recente ofensiva da "resiliência" me fez lembrar um caso parecido. Nos anos oitenta, um palavrão saltou do dicionário e caiu nas graças das redações de todo o Brasil. Quem, como eu, já viveu bem mais de quarenta primaveras certamente se recorda do "recrudescimento" (aumento, agravamento), que foi usado em matérias sobre inflação e violência, entre outros temas, a ponto de não mais se aguentar. Com o tempo, a palavra saiu de moda e os repórteres e editores voltaram a usar um português inteligível para dizer que a inflação cresceu e a criminalidade aumentou.

Não quero, com essas considerações, afirmar que a linguagem jornalística deva ser resumida a textos meramente informativos, desprovidos de um vocabulário variado e eficiente. Mas acredito que, em jornal, principalmente quando se escreve para a generalidade dos leitores, deve-se evitar tudo o que atrapalha a compreensão do texto. E, mais ainda, quando existe a opção de usar uma palavra mais acessível e que todo mundo conhece.




PS.: Caso a palavra pouco conhecida precise mesmo ser usada (numa citação entre aspas, por exemplo), é recomendável colocar o significado entre parênteses. O leitor, que geralmente não é doutor, agradece.





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