10 de dez de 2010

Quanto mais eficiente for o jornalista, mais indigesto ele será para o poder


Por José Carlos Fineis



O site WikiLeaks obrigou os jornalistas a uma reflexão radical sobre si mesmos. Uma reflexão indispensável sobre o quanto estão dispostos a ser eficientes em sua missão de informar e, consequentemente, de impor aos agentes políticos um grau de transparência que lhes é absolutamente embaraçoso e comprometedor.

Governantes, mesmo os mais democráticos, evitam a transparência.

E isso porque transparência, em última análise, significa o fim do caixa dois, dos superfaturamentos, das concorrências direcionadas, das contratações irregulares, do nepotismo, da impunidade, dos favorecimentos, dos acordos fisiológicos, dos pequenos e grandes vícios que fazem do poder político, em sua convergência com o poder econômico, um negócio eminentemente privado, quando deveria ser 100% público.

Ainda que nada disso exista, e que o político seja bem intencionado, sua tendência será sempre a de tirar proveito do jornalista, usando-o para divulgar aquilo que quer ver publicado, e que não é, necessariamente, o que precisa ser conhecido.

Logo, quanto mais o jornalista for eficiente e conseguir expor o que acontece nos bastidores da política e da administração pública, mais será desprezado por políticos e governantes.

O jornalista que assume integralmente um compromisso profissional com a sociedade deve saber que não terá amigos entre os poderosos. Sua missão é informar, e a qualquer momento, desde que não se faça de morto, sua capacidade de executar bem essa missão o colocará em rota de colisão com os que gostariam de vê-lo simplesmente copidescando releases.

Não é outro o motivo pelo qual Julian Assange foi jogado numa cela de cadeia, enquanto tantos repórteres e editores confraternizam com os agentes públicos, na qualidade de amigos e comensais do poder.

Embora muitos jornalistas se esforcem por não percebê-lo, o ensinamento bíblico de que não se pode servir a dois senhores se aplica perfeitamente a esta profissão.

Quem escolhe servir a sociedade exclui, invariavelmente, qualquer possibilidade de convivência amigável com o poder.

E quem escolhe ser amigo do poder afasta, automaticamente - na proporção inversa de seu envolvimento -, a possibilidade de ser útil para a sociedade.

O jornalista consciente de seu papel vai às festas a serviço, ou não vai. Trata as autoridades com educação, mas sem intimidades. Rejeita privilégios; não fura filas. Quer ser tratado nas repartições como qualquer cidadão. Não aceita descontos, declina polidamente das homenagens. E sabe recusar, com elegância, os presentes com que os poderosos tentam conquistá-lo.

Sei que é difícil renunciar a tudo isso. Mas o distanciamento em relação ao poder que seduz e alicia, seja ele político ou econômico, é condição elementar ao exercício honesto do jornalismo.




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