30 de nov de 2010

O assassino de pautas

Por José Carlos Fineis


Um belo dia, o repórter entra na minha sala:

- Xi, Zé. Essa pauta que você passou aí, não sei não, hem? Eu fui até o local mas não achei ninguém que falasse. Também deve ser difícil encontrar aquilo que você falou, porque esse pessoal é esperto, não fica assim, dando bobeira...

- Mas você perguntou?

- Perguntei.

- E o que eles disseram?

- Ah, o pessoal não é muito de falar, né? Também eu não tinha tempo...

- Mas deve ter alguém que já viu isso. Tem bastante gente fazendo. Se você ficar por ali, talvez nem precise alguém falar, talvez você mesmo veja.

- Xi, aí é que vai ser difícil mesmo.

- Mas prometa que você vai tentar.

- Ah, tudo bem, mas essa pauta aí, não sei não...


* * *

Passados cinco dias, vou perguntar pra ele se conseguiu alguma coisa.

- Eu tava com outras pautas, mas, se você quiser, eu volto lá. Agora, tem o seguinte. Tem uma menina na redação que diz que não é bem assim. Porque... Qual seria a vantagem de quem faz aquilo? A pessoa perderia um tempão fazendo o que você falou, pra ganhar o quê?

- Bom, eu digo que tem. Você quer que eu passe a pauta para outra pessoa?

- Ah, isso é que não. A pauta tá comigo. O problema é que eu tô tentando, mas tá difícil de fazer.

- Então você vai voltar lá?

- Esta semana eu tô fazendo uma reportagem especial pra domingo, mas assim que eu terminar eu volto lá.

- E fala com bastante gente?

- Falo, mas já adianto que eles não vão querer se identificar.

- Por que não?

- Ah, sei lá. Aquele pessoal não é de falar, e, quando fala, não quer dar o nome.

- Bom, tente conversar, gravar a entrevista. Talvez possamos usar em off mesmo. Quem sabe você encontra alguém que faz o negócio?

Ele ri, enigmaticamente:

- Pois é. Quem sabe?


* * *

Um mês depois, ele passa ligeiro pela minha porta, e eu o chamo.

- Você pode vir aqui um pouco?

- É que eu tô indo pra uma entrevista...

- É coisa rápida. Você viu o concorrente?

Ele baixa os olhos.

- Vi.

- Viu a reportagem que eles fizeram sobre aquele caso?

- Vi, mas...

- Então. O repórter deles conseguiu três fontes que viram a coisa, e até uma que já fez aquilo.

- É? Eu não li tudo.

- É sim. E as fontes se identificaram, precisa ver que beleza!

- Puxa, que sorte a dele, hem?

E, recuperando o sorriso:

- Viu, Zé. Eu tô saindo pra um compromisso agora, mas quando tiver um tempinho, queria que você me desse um palpite sobre a reportagem para o prêmio de jornalismo. Eu tenho a dos velhinhos e a do coral de crianças. Qual você acha que eu devo inscrever?





* * *

29 de nov de 2010

E quem vai de ônibus, por acaso não merece consideração?

Por José Carlos Fineis

Já se tornou lugar comum afirmar que a vantagem competitiva do jornal impresso é a capacidade de contar boas histórias, noticiar em profundidade e ajudar o leitor a entender os fatos.

Na verdade, isso tudo é importante (e também textos atraentes, algo de que se tem descuidado), mas outras coisas não são menos importantes num jornal.

Por exemplo: a capacidade de prever o que o leitor quer e precisa saber e informá-lo na medida de sua necessidade.

Os chamados “serviços” não podem faltar. A reportagem pode ser bem feita. Entretanto, se ao final da leitura o leitor ainda precisar telefonar para algum lugar em busca de informações, para que serve o jornal?

Uma coisa que sempre me incomoda é a ausência de informação sobre transportes coletivos ao final de notícias sobre shows, vestibulares e outros eventos, que deslocam milhares de pessoas em curtos espaços de tempo, por vezes para locais de difícil acesso.

Será que todos os leitores têm carro? Só essa suposição pode justificar que não se ofereçam informações sobre horários de ônibus e possíveis carros extras, bem como locais de partida.

Informar sobre transportes é básico. O repórter, ao noticiar grandes eventos, deve sempre ligar para as empresas de ônibus e levantar todas as informações, com detalhes. E, se não houver esquema especial numa Fuvest ou Enem, por exemplo, questionar o porquê. Afinal, é bem provável que muitos acabem ficando a pé e perdendo a prova, e aí a notícia assume uma importância ainda maior.

Provavelmente, nascerá daí uma cobrança para a empresa de transportes e o poder público. E o jornal prestará um serviço indispensável à comunidade, já que a população será alertada com antecedência sobre possíveis dificuldades para chegar ao local.

Mas, para isso, o repórter deve ter interesse e sensibilidade, e procurar "entrar na pele" do leitor, sempre. É um exercício diário, que com o tempo se torna uma prática semi-automática, mas que exige uma atenção redobrada de quem escreve e de quem edita a matéria.

Um jornal precisa pensar com carinho nas necessidades das pessoas. Jamais deixá-las na mão, naquilo que precisam saber. E as pessoas, com certeza, retribuirão pensando duas vezes antes de cancelar a assinatura do jornal.

27 de nov de 2010

Jornalismo, imprensa e comunicação (e um pouco de provocação) em 20 tuitadas

As frases abaixo foram publicadas no meu Twitter. São reflexões sobre jornalismo, imprensa e comunicação em geral, que vão me ocorrendo à medida em que vejo coisas que acontecem, ou observo o comportamento de alguém. Todas são minhas - ou, pelo menos, penso que sejam. Mesmo assim, é possível que alguma delas seja um eco distante de alguma coisa que ouvi e li em algum lugar. Não costumo cometer esse tipo de delito, mas, se isso ocorrer involuntariamente (aliás, isso vale para todos os posts), por favor, me avise e darei o devido crédito. E, por outro lado, se achar alguma delas interessante e quiser utilizá-las, fique à vontade - mas ponha meu nominho embaixo, ok?

Um bom cozinheiro é mais útil numa redação do que um péssimo jornalista.

Quem vende jornal é o telemarketing, o dono da banca. Faça sua matéria o melhor possível, mas deixe essa preocupação para eles.

Existe uma forma relapsa de procurar que, na verdade, não passa de uma forma de esconder. Em jornalismo, isso é desastroso.

Um jornalista sem consciência social é como um jogador de futebol que não sabe chutar pro gol. Por que estou dizendo isso? Sei lá!

Em tempo de eleição, o jornalismo imparcial e apartidário desagrada a gregos e troianos. Mas a função do jornal não é agradar, é informar.

Um texto sempre pode ser melhorado. Algumas vezes, com acréscimos. Na maior parte das vezes, com supressões.

É fácil ser defensor da liberdade de expressão num país livre como o Brasil. Macho mesmo é quem faz isso na China.

Me desculpem a imagem grosseira, mas certos veículos da "grande imprensa" parecem galinhas alvoroçadas, com medo da dona do galinheiro.

Já fui assessor de imprensa, sei como é estar do outro lado, esperando que o "olimpo" se digne ler seu release. Não é fácil, não.

Google, Orkut, MSN, Facebook, Twitter: vivíamos bem sem tudo isso, lembra? Logo, tudo isso não pode ser tão importante.

Se eu tivesse um filho jornalista e ele me pedisse um conselho, diria para jamais concorrer a prêmios oferecidos pelo poder político.

Mexer com certos assuntos é como enfiar a mão numa caixa de aranhas. Mas a consciência não deixa outra alternativa.

Assusta a maquinação desses Prometeus invertidos, tramando para que o fogo sagrado da informação seja novamente um privilégio de poucos.

O repórter pode evitar que suas opiniões contaminem o texto. Mas para isso deve ser inteligente, honesto e, sobretudo, respeitar o leitor.

Imagens em câmera lenta, texto piegas, locutor meloso, pianinho ao fundo. A fórmula televisiva pra transformar imbecil em heroi.

Jornalista reclamando de plantão é como cozinheiro reclamando de fogão. Será que eles não sabem que notícia não tem hora?

Numa ditadura, de esquerda ou de direita, quem de nós se arriscaria pela liberdade? E quem de nós, alegremente, iria cear com o torturador?

A censura é a falência da razão. E, como toda grande insanidade, começa com alguma pequena bobagem, sempre.

A verdade sempre incomoda e causa reclamação.

O trabalho do bom jornalista começa onde termina o do repórter medíocre, que se contenta com gestos e declarações.

25 de nov de 2010

Decálogo do Jornalista Tuiteiro

Por José Carlos Fineis

1 – Não emitir opiniões pessoais sobre os assuntos de suas pautas.
2 – Não revelar preferência por partido ou candidato.
3 – Não fazer propaganda de produtos e estabelecimentos comerciais ou de serviços.
4 – Quando tuitar texto ou foto de alguém, sempre dar o crédito.
5 – Não tuitar algo que o veículo em que trabalha ainda não tenha tuitado.
6 – Não tuitar ou retuitar piadas ou comentários preconceituosos.
7 – Respeitar a opinião alheia e jamais xingar alguém por ter opinião diferente da sua.
8 – Não reclamar da pauta, do chefe ou do empregador, ainda que por indiretas.
9 – Jamais revelar suas pautas no Twitter, nem que seja para achar fontes.
10 – Nunca tuitar quando está bêbado ou na hora da raiva (seja lá o que for, deixe passar).

Sigo estas regras quase intuitivamente, mas, de tanto observar o comportamento alheio no Twitter, resolvi escrevê-las. Pode ser que sirvam para mais alguém. Para mim, este decálogo é o básico do básico para preservar a credibilidade como jornalista e observar um comportamento ético em relação ao veículo em que se trabalha e ao leitor. Mas é claro que ninguém precisa segui-lo, se achar que não deve.

21 de nov de 2010

Pra começar, me desculpe. E acredite: não é nada pessoal

Há tempos alimentava a ideia de escrever um blogue (assim mesmo, em português) para discutir um de meus temas favoritos: o jornalismo e sua interação com a sociedade, especialmente no que diz respeito à ética do jornalista e a sua postura diante do público que consome o produto de seu trabalho.
Bem, aqui estou eu, imaginando por onde começar.
Creio que talvez a mensagem mais apropriada, neste momento, seja um pedido de desculpas antecipado, aos amigos e às pessoas que me rodeiam, quase todas jornalistas por profissão e, muitas delas, também por amor ao ofício e convicção.
Desculpas sim, pois o que irei escrever talvez possa ferir suscetibilidades. Mas garanto que não pretendo, aqui, fazer comentários de caráter pessoal, nem necessariamente de fatos vividos no local onde trabalho atualmente.
Em março de 2011, mais exatamente no dia 15, completarei 30 anos com os dois pés (e a Carteira de Trabalho, e o coração também) nesta profissão. Muito do que eu vier a abordar aqui, portanto, pode se referir a outros profissionais e outros locais onde trabalhei, ou mesmo a exemplos de comportamentos de jornalistas de outros veículos, que eu procurarei comentar sempre desfocando os personagens e focando nas atitudes, que é o que realmente interessa.
Não quero criticar pessoas nem veículos. Muito menos fazer apologia de partidos ou o que quer que seja. E antes que alguém pergunte: não, não sou candidato.
Este blogue, como o nome sugere, pretende apenas produzir uma referência crítica sobre o jornalismo nosso de cada dia, permitindo que se criem frentes de debate sobre temas que, quase sempre, acabam passando despercebidos.
Coisas do dia-a-dia de quem se interessa vivamente pela contribuição que o jornalismo sério, comprometido, feito com amor, pode oferecer para a sociedade. Prometo colocar aqui tudo o que consegui amadurecer em trinta anos de trabalho, e principalmente, uma maneira muito particular de enxergar o jornalismo como meio de vida, e não apenas como meio de ganhar a vida.
Agradeço aos possíveis leitores, e fico à disposição para discutir os temas, da forma que o tempo permitir. Seja meu convidado nesta tentativa de entender essa nossa profissão complexa, confusa, por vezes fútil e contraditória. E aos que não me conhecem, por favor, não estranhem: às vezes sou bastante irônico. Ainda não sei se isso é uma qualidade ou um defeito em mim.