29 de nov de 2010

E quem vai de ônibus, por acaso não merece consideração?

Por José Carlos Fineis

Já se tornou lugar comum afirmar que a vantagem competitiva do jornal impresso é a capacidade de contar boas histórias, noticiar em profundidade e ajudar o leitor a entender os fatos.

Na verdade, isso tudo é importante (e também textos atraentes, algo de que se tem descuidado), mas outras coisas não são menos importantes num jornal.

Por exemplo: a capacidade de prever o que o leitor quer e precisa saber e informá-lo na medida de sua necessidade.

Os chamados “serviços” não podem faltar. A reportagem pode ser bem feita. Entretanto, se ao final da leitura o leitor ainda precisar telefonar para algum lugar em busca de informações, para que serve o jornal?

Uma coisa que sempre me incomoda é a ausência de informação sobre transportes coletivos ao final de notícias sobre shows, vestibulares e outros eventos, que deslocam milhares de pessoas em curtos espaços de tempo, por vezes para locais de difícil acesso.

Será que todos os leitores têm carro? Só essa suposição pode justificar que não se ofereçam informações sobre horários de ônibus e possíveis carros extras, bem como locais de partida.

Informar sobre transportes é básico. O repórter, ao noticiar grandes eventos, deve sempre ligar para as empresas de ônibus e levantar todas as informações, com detalhes. E, se não houver esquema especial numa Fuvest ou Enem, por exemplo, questionar o porquê. Afinal, é bem provável que muitos acabem ficando a pé e perdendo a prova, e aí a notícia assume uma importância ainda maior.

Provavelmente, nascerá daí uma cobrança para a empresa de transportes e o poder público. E o jornal prestará um serviço indispensável à comunidade, já que a população será alertada com antecedência sobre possíveis dificuldades para chegar ao local.

Mas, para isso, o repórter deve ter interesse e sensibilidade, e procurar "entrar na pele" do leitor, sempre. É um exercício diário, que com o tempo se torna uma prática semi-automática, mas que exige uma atenção redobrada de quem escreve e de quem edita a matéria.

Um jornal precisa pensar com carinho nas necessidades das pessoas. Jamais deixá-las na mão, naquilo que precisam saber. E as pessoas, com certeza, retribuirão pensando duas vezes antes de cancelar a assinatura do jornal.