17 de mai de 2013

Cirurgia de Angelina Jolie antecipou debate sobre os limites éticos da medicina


Por José Carlos Fineis


Cirurgia preventiva é como guerra preventiva: comete-se uma violência (contra o corpo ou contra um povo inteiro) com base no argumento hipotético de um risco iminente -- ou, para falar português bem claro, para combater alguma coisa que não existe.

Preventivo teria sido, também -- segundo aqueles que o praticaram --, o golpe de 1964, já que alegavam haver a ameaça de o Brasil se tornar um país socialista. Jango foi deposto, apesar de ter sido empossado na Presidência pelas vias democráticas. As liberdades civis e políticas foram cassadas, muita gente foi presa e torturada, o Congresso foi fechado: tudo em nome de uma pretensa ameaça.

Mas, voltando à cirurgia: não vejo motivo para surpresa ou indignação no fato de Angelina Jolie ter retirado os seios preventivamente. Atrizes e outras celebridades (inclusive homens, que não gostam de malhar e querem parecer “bombados”) recorrem à cirurgia com frequência, apenas por estética e vaidade; por que não o fariam para afastar o risco de um câncer?

Por outro lado, não posso deixar de pensar no que aconteceria se o gene defeituoso apontasse para o risco de um câncer encefálico. Será que alguém faria uma remoção preventiva do cérebro? Ou se o risco de câncer fosse nas pernas. Alguém (celebridade ou não) cortaria uma perna sadia, para colocar uma prótese no lugar?

Parece óbvio que a melhor maneira de prevenir doenças é fazer exames regulares e ter hábitos de vida saudáveis. E cultivar uma atitude de humildade diante do fato de que, como dizem os velhos espanhóis do Além-Ponte (bairro de Sorocaba onde vivi minha infância), “a morte sempre encontra um pretexto”.

Afinal, uma das poucas certezas dos que estão vivos é de que irão morrer. E, pelo menos no estágio atual da ciência, só existe uma maneira de afastar o risco da morte: não nascer. Mas isso é completamente imoral (já que a escolha teria de ser feita por outra pessoa, num estágio anterior à existência do indivíduo) e, pelo menos até onde sei, não tem graça nenhuma. Qual a vantagem de não morrer, se não se pode experimentar a doce e efêmera vida?

(As pessoas que creem em Deus diriam que é preciso ter fé, igualmente. De fato, para quem a possui, a fé é sempre um bálsamo -- e uma razão para seguir confiante. Mas o foco deste artigo não pretende ir tão longe. Não se pode receitar a fé como terapia para alguém, cientificamente falando.)

De qualquer forma, creio que o problema da Angelina não pode ser reduzido a meia dúzia de argumentos. Há um drama psicológico intenso por trás disso tudo, que não pode ser ignorado. A meu ver, uma vez que os médicos a alertaram que teria 87% de chances de ter um câncer, ela reagiu fazendo mais do que simplesmente extirpar os seios: o que ela fez foi remover um temor (e um terror) de sua mente. Sacrificou os seios sadios para não ter de conviver com o fantasma do câncer, a ideia -- já agora palpável, posto que amparada em uma "comprovação" científica --, de que poderia desenvolver a doença em qualquer estágio da vida.

Vista por esse ângulo, a “solução” radical se torna mais aceitável. O que ocorreu -- se minha análise estiver correta -- não foi apenas a preservação do corpo: foi uma cura psicológica. Cura do medo de enfrentar uma doença terrível. Cura -- talvez paliativa, e certamente temporária -- diante da consciência da morte física, que todos estamos condenados a carregar por toda a vida, como um preço (para alguns, irrelevante; para outros, insuportável) que se paga para viver.

Chegará um momento em que a ciência evoluirá a ponto de diagnosticar doenças geneticamente presumíveis nos órgãos de um feto com poucos meses de vida. Talvez isso já seja possível, com algum grau de confiança. Aí sim, teremos algo polêmico a ser debatido. A questão central é: poderão os pais fazer abortos preventivos para evitar o risco de ter um filho doente, mesmo sabendo que esse risco tem uma chance (digamos, de 13%) de jamais se tornar uma doença real?

Talvez o conceito de prevenção precise ser revisto e, num sentido eminentemente ético e moral, deva ser delimitado em algum momento da evolução humana, a fim de que as pessoas possam voltar a nascer, viver, ter filhos e morrer em paz.